Entre os principais gargalos estão a falta de infraestrutura de armazenagem, de segregação de grãos e o próprio Custo Brasil
Entre os principais gargalos estão a falta de infraestrutura de armazenagem, de segregação de grãos e o próprio Custo Brasil | Foto: Roberto Custódio


O enfrentamento de pragas e problemas climáticos é o grande desafio para a produção de trigo, mas já existem cultivares de grande qualidade e capazes de duplicar a produtividade. Pesquisador da Embrapa Trigo (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Eduardo Caierão afirma que os estudos feitos nos últimos anos ocorreram em todas as frentes, seja para elevar a resistência a pragas, a qualidade ou mesmo o rendimento.



No entanto, ele lembra que o caminho para chegar ao potencial genético disponível é grande e a pesquisa não pode ser a única responsável pela viabilidade da triticultura. "Temos ensaios em que a produtividade de cultivares chega a ser o dobro do que o agricultor consegue no campo", conta.

Da mesma forma, lembra que há cultivares resistentes a doenças. Porém, considera que são problemas estruturais do País os maiores responsáveis pela pouca importância dada à cadeia do trigo. "O Brasil pode chegar a ser autossuficiente em algum momento, mas não será logo. Temos falta de infraestrutura de armazenagem, de segregação de grãos, o próprio Custo Brasil, que eleva os gastos em relação ao produtor da Argentina ou do Paraguai, a falta de políticas para o trigo e o frente mais caro", conta.

Para Caierão, a cadeia produtiva tem atuação menor do que deveria junto a governantes e iniciativas individuais são as únicas a dar fôlego ao segmento. "Algumas cooperativas pioneiras investiram em um trabalho de segregação e conseguiram resultados melhores, conversando mais com a indústria. Quanto mais se diminuir a distância entre o produtor e o fabricante, melhor para todos."

O coordenador do departamento econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Pedro Loyola, concorda com o problema da armazenagem. Ele diz que o produto nacional é colhido cerca de quatro meses antes do argentino chegar ao nosso mercado, período em que produtor e cooperativas correm para vender os grãos. "Se nossa produção for de 6 milhões de toneladas e querem comercializar tudo em quatro meses, vão vender barato porque o consumo é de 12 meses", diz.

Loyola diz que mesmo as cooperativas sofrem com a falta de infraestrutura de armazenagem, porque precisam rodar três safras em um ano. "Até os moinhos trabalham com estoques somente para um mês", diz. "Não adianta falarmos de potencial enorme se o produtor terá prejuízo."

"O Brasil pode chegar a ser autossuficiente em algum momento, mas não será logo", avalia o pesquisador Eduardo Caierão
"O Brasil pode chegar a ser autossuficiente em algum momento, mas não será logo", avalia o pesquisador Eduardo Caierão | Foto: Paulo Odilon Ceratti Kurtz/Embrapa Trigo



CRÉDITO PARA SILOS
Levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) de agosto de 2015 aponta que o País tem capacidade de armazenar 155,1 milhões de toneladas (t), com defasagem de 53,7 milhões de t em relação à previsão de produção da época, o equivalente a 25,7% do total. Somente 2,3 milhões de t, ou 1,1%, estão em silos públicos, que foram construídos pela Companhia Brasileira de Armazenamento, extinta em 1990.

Uma das únicas linhas de crédito com redução significativa da taxa de juros neste ano foi justamente o Programa de Ampliação e Construção de Silos e Armazéns (PCA), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A taxa era de 8,5% ao ano até o ano passado e passou a 6,5%, justamente na tentativa de fomentar a atualização da infraestrutura.

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