Imagem ilustrativa da imagem Cuidados antes de “entrar de cabeça” na atividade
| Foto: Marcos Zanutto

O produtor e ex-extensionista Gilberto Shingo tem uma bagagem em orgânicos de longa data. Ele possui uma propriedade de 12 hectares em Ibiporã há 24 anos, mas até 2008, enquanto era extensionista na Fundação Mokiti Okada – já trabalhando com alimentação natural – a área era em parceria com um agricultor que já atuava com orgânicos.

Em 2012, colocou a mão na massa e pôs em prática todo conhecimento que já transferia a outros produtores. Numa área de 1,2 hectare atua com alimentos orgânicos certificados, tanto em cultivo a céu aberto com olerícolas diversas, como do tomate cereja em estufa. A produção de hortaliças é vendida diretamente ao consumidor final, enquanto o tomate segue para empresas que comercializam com supermercados. A produção atual de tomates é de 120 quilos semanais, com a expectativa de chegar a uma tonelada por mês em breve.

Shingo tem uma expertise enorme no assunto, mas não vê os alimentos orgânicos como a salvação da lavoura. Ele comenta que ao longo dos anos viu muitos produtores entrarem na atividade, mas saírem depois. Segundo ele, muitos apostaram nos orgânicos com todas as forças, sem calcular os riscos e uma transição mais pensada, avaliando a atividade de forma macro. “O agricultor muitas vezes entrou de cabeça e abandonou o que vinha fazendo, como a agricultura convencional, por exemplo. Se é de outra atividade que não a agricultura, abandonou tudo. Orgânicos é uma atividade como outra, com gargalos e limitações. Percebi que os que avançaram devagar (gradativamente), tiveram mais sucesso.”

Para o engenheiro agrônomo, apesar do aumento de consumo na região, a relação do consumidor com o produto ainda é mais superficial quando comparado com grandes centros, que valorizam mais esse tipo de alimentação. Por isso, o cuidado do produtor em apostar na atividade. “Acredito que a demanda aqui no interior do Estado precisa avançar bastante. Temos uma agricultura muito forte, por isso o acesso aos alimentos é fácil. Temos dificuldade de divulgar os orgânicos como um trabalho diferenciado, como acontece nas capitais, até porque o perfil do consumidor é diferente.”

Em relação ao manejo, Shingo também relata que o olhar precisa ser bem diferente para o dia a dia da atividade. “Na agricultura orgânica, o pacote (tecnológico) pronto não funciona como na convencional. Se há uma praga no tomate, não espere que um produto 'xis' será aplicado e resolverá o problema. É preciso olhar a natureza como um todo, os ecossistemas que estão rodeando a produção, o solo, são mais fatores envolvidos.”

Ele também cita que a relação entre o homem e a planta também precisa ser diferente. “É algo subjetivo, mas influencia bastante. A forma mais fácil de entender isso é o cuidado com os animais. Se você só judia e dá bronca no seu bichinho de estimação, ele fica retraído, com medo de você. É o mesmo cuidado com o solo e a planta para que caminhem bem e tragam resultado.”

Em relação às expectativas com a venda de produtos para a merenda escolar – chegando a 100% das escolas em 2030 – Shingo acredita que a perspectiva é muito audaciosa. “Não é tão simples, há muitas implicações. Como dividir a fatia do bolo, a logística também é bem complicada. Eu creio que quem vai ser beneficiar são grupos mais organizados.”

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