Cruzamento para formar purunã
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 1997
Cláudia Barberato 
Uma equipe de pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) está desenvolvendo na Estação Experimental Fazenda Modelo, em Ponta Grossa, uma nova raça bovina, indicada para ser criada no Sul do País, principalmente no Centro-Sul do Paraná. O gado purunã, como se chama a nova raça, é um boi composto, formado a partir do cruzamento de outras quatro raças: charolês, aberdeen angus, caracu e canchim.
De acordo com o zootecnista do Iapar, José Luiz Moletta, as raças participantes do projeto foram escolhidas com base na disponibilidade de animais na região de Ponta Grossa; compatibilidade de combinação racial e a maximização de heteroze (choque de sangue) nos cruzamentos. O trabalho tem conclusão prevista até 2008. Até lá serão efetuados cruzamentos e avaliação dos produtos da nova raça no desempenho de ganho de peso.
Além de Moletta, responsável pela nutrição e manejo do rebanho, a equipe técnica é composta pelos seguintes pesquisadores do Iapar: Daniel Perotto, agrônomo responsável pelo projeto; o veterinário Nilceu Lemos da Silva, responsável por estudos em sanidade (parasitologia); Carlos Lesskiu, veterinário e administrador da Estação Experimental e o técnico agrícola João Motta.
Escolha das raçasO trabalho para formação do composto começou em 1980 com pesquisas para caracterizar biologicamente as raças caracu, charolês, aberdeen angus e canchim na produção de carne bovina, avaliando os cruzamentos para produção de carne no Centro-Sul do Estado e estimar a heterose retida nas gerações avançadas dos cruzamentos rotacionais.
O charolês, por exemplo, é amplamente difundido no Sul do Paraná e nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Existem, no Paraná, mais de 200 criadores da raça, totalizando um rebanho de mais de 10 mil cabeças. Trata-se de uma raça especializada para produção de carne que apresenta, segundo trabalho da equipe envolvida no projeto, velocidade de ganho de peso, grande porte e alta relação de músculo/gordura.
As limitações são a taxa de maturação lenta, baixa produção de leite e alta incidência de partos distócicos (partos em que o animal está em posição errada e é necessário fazer cesariana). A partir das limitações de cada raça utilizada na formação do purunã é que se procura outra raça que compense.
O gado caracu, outra das raças usadas para conseguir o purunã, é gado que descende de taurinos. Hoje a raça possui mais de 20 mil animais registrados na associação brasileira de criadores. Segundo dados de pesquisa do próprio Iapar, é a mais pesada entre as raças bovinas crioulas, com touros e vacas podendo alcançar, respectivamente, 950 quilos (kg) e 650 kg.
Em associação com o porte elevado, o caracu tem alta taxa de ganho de peso e elevada idade à puberdade. Caracteriza-se ainda pela docilidade, alta fertilidade, baixa mortalidade de terneiros, resistência à parasitose, e a algumas doenças, além de sobreviver em ambientes adversos. No Paraná, em cruzamentos como o charolês, o caracu tem se destacado pela resistência ao carrapato e desenvolvimento ponderal até a desmama.
A raça aberdeen angus apresenta um mérito genético nestes cruzamentos, segundo dados relatados em publicação dos pesquisadores do projeto purunã: tem características maternas como fertilidade e produção de leite. Por ser uma raça de porte médio, apresenta maturação mais rápida e, consequentemente, idade à puberdade mais cedo. A relação músculo/gordura também é inferior à do charolês. Sua utilização em cruzamentos é documentada em dezenas de trabalhos conduzidos na Europa, América do norte, Austrália e América do Sul. Resultados preliminares de pesquisas em andamento no Paraná indicam que o aberdeen angus em cruzamentos com o cachim e o red angus em cruzamentos com o nelore situam-se entre as melhores alternativas de cruzamentos para produção de carne bovina no Estado.
Canchim é uma raça sintética, originada em São Carlos (SP), pelo cruzamento entre charolês e zebu. Sua seleção tem sido orientada no sentido de elevar a velocidade de ganho de peso, melhorar a fertilidade dos touros e aprimorar a habilidade materna. Tendo parte do sangue zebuíno, o canchim é animal rústico, resistente ao calor e a ectoparasitas. Os resultados de provas de ganho de peso realizadas anualmente, desde 1951, em Sertãozinho (SP), revelam a superioridade do canchim em relação ao nelore, gir, guzerá, santa gertrudis e brangus, com respeito ao ganho de peso em confinamento. Nos trabalhos conduzidos pelo Iapar, os animais de cruzamentos de canchim com aberdeen angus apresentam maior resistência ao carrapato e melhores características de carcaça que o angus puro.
Avanços genéticosO plano de acasalamentos a ser seguido na formação do gado purunã, afirma Moletta, tem como objetivo também ter um rebanho para fornecer dados de pesquisa. Além disso, o plano está delineado para evitar o crescimento do grau de consanguinidade dos compostos pela contínua restauração da heterozigose através da injeção de germoplasma das quatro raças através de touros puros. O uso de touros puros charolês, caracu, aberdeen angus e canchim permitirá também que os avanços genéticos alcançados nessas raças pelos programas de seleção de suas associações sejam transferidos continuamente ao purunã.
Em sua formulação atual, o plano de acasalamento está previsto até o ano 2008. O sêmen desses touros será coletado na Estação Experimental Fazenda Modelo e, posteriormente, processado e envazado no Laboratório de Reprodução Animal do Canguiri, também pertencente ao Iapar. Touros considerados aptos à reprodução e que não tenham defeitos funcionais ou anatômicos serão distribuídos a produtores do Paraná através do Programa Troca de Touros. O Iapar pretende difundir o purunã no meio criatório simultaneamente à sua formação na estação experimental.


