Cruzamento entre trigo e milho
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
Jota Oliveira 
É apenas o começo, pois o caminho pode conduzir à resistência a outras doenças e situações limitantes da triticultura. A pesquisa, desenvolvida nos últimos quatro anos pelo fitopatologista do Instituto Agrônomico do Paraná (Iapar), Yeshwant Ramchandra Mehta, e equipe, utiliza técnica de biologia celular, denominada por eles de haplodiploidização, e permite encurtar em quatro a cinco anos a criação de uma nova variedade (cultivar).
Dorico da SilvaYeshwant R. Mehta, pesquisador do IaparOs reflexos poderão ser econômicos e sociais. Mehta esclarece que se trata de uma clonagem, porque não há intercâmbio de material genético durante o processo de cruzamento do trigo com o milho. Com isso, pode-se obter uma planta de trigo ideal, em menos tempo do que o convencional, o que significará economia para o País e para o agricultor.
ImportânciaNa opinião do coordenador científico do Iapar, Manoel Gomes Cardoso, a pesquisa sobre cruzamento de trigo com milho, para dar resistência às duas principais doenças do trigo, é importante dos pontos de vista científico, econômico e social.
Cardoso garante que a tecnologia desenvolvida pode ser aplicada em outras culturas; proporciona economia de tempo equivalente a 50%, ou seja, uma redução no custo dos investimentos em pesquisa. Além disso, a nova tecnologia deve contribuir para diminuir a importação de trigo pelo Brasil, que compra de outros países 80% do cereal, para atender suas necessidades.
IaparAs novas plantas nasceram em laboratório, mas em 3-4 anos a variedade resistente estará no mercadoO pesquisador Osmar Musilli, vice-coordenador científico do Iapar, comenta que esse trabalho de pesquisa, desenvolvido com recursos captados na sociedade, proporciona uma economia de custo, ao reduzir pela metade o tempo para gerar um novo material. Há uma economia de custo para a sociedade. É o ganho social. Incorpora também ganho social ao economizar venenos, o que acrescenta um ganho para a saúde. É uma somatória de ganhos, destaca Musilli.
Começo há quatro anos Mehta lembra que são plantas produzidas em laboratório, onde lhes é induzida maior resistência a doenças. As plantas escolhidas são submetidas a várias doenças, no laboratório, para saber a quais elas são resistentes.
Podemos criar novas variedades (cultivares) com resistência a qualqeur problema, dando-lhes as características desejáveis, destaca o pesquisador. Ele prevê para dentro de três a quatro anos a chegada das novas variedades ao mercado. Isto é possível pelo fato do tempo de multiplicação ser reduzido.
A técnica de haplodiploidização começou em Cambridge, Inglaterra, em 1990, e vem sendo usada naquele e em outros países tecnologicamente avançados - Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França, Holanda e agora, com tecnologia nova, no Brasil, onde é inédita, porque o pessoal do Iapar a modificou um pouco, para a adaptar às condições locais.
No Iapar a pesquisa está sendo feita desde 1995. Mehta esclarece que modificou um pouco a estratégia em relação aos embriões somáticos, depois modificou a concentração de hormônio, para evitar a variação somaclonal que se faz através de mutações. A concentração hormonal normalmente utilizada foi reduzida em um quinto.
Qualidade, produtividadeO pesquisador espera que o cruzamento de trigo com milho não altere a produtividade e a qualidade do trigo. Essas características foram preservadas através da duplicação de cromossomos.
O material desenvolvido no Iapar não servirá de base para novas variedades. Mehta explica que cada vez que se pretender uma variedade, será utilizado novo material. Mas, observa que o material pesquisado agora tem uma característica muito boa. Não se pode partir de um material ruim. Nós queremos também diversificação.
No sistema convencional gastam-se de 10 a 11 anos para conseguir uma variedade. O sistema desenvolvido no Iapar fixa a variedade em uma só geração. Esta é uma vantagem - o ganho é mais da metade do que se gastaria (em tempo e dinheiro) no processo normalmente usado.
Na técnica que os pesquisadores do Iapar desenvolveram, partiu-se de variedades com boas características agronômicas, mas o processo, explica Mehta, não depende de variedades de trigo, e sim do híbrido ou sintético do milho. Para chegar às sementes modificadas, foram usadas duas variedades de milho e sete de trigo. Misturou-se pólen de dois híbridos de milho, para obter melhor pegamento.
Embora no momento a técnica seja apenas para o trigo, pode-se no futuro experimentar outras culturas e mesmo buscar transferir vantagens diversas, para uma ou outra planta, usando-se novamente trigo e milho. Por exemplo, introduzir no milho a qualidade de proteína do trigo, ou utilizar no millheto (alimento básico para milhões de africanos e asiáticos que vivem em clima quente e com deficiência hídrica), também o gen responsável pela proteína do trigo.
Será responsabilidade do Iapar multiplicar, registrar e comercializar as sementes básicas. Depende como o material se comportará no campo. Esse material não é ainda uma cultivar e não tem um nome, porém Mehta acredita que dentro de três a quatro anos ele poderá estar à disposição do agricultor.


