Crise hídrica deve consolidar cenário preocupante

Conab prevê colheita de soja paranaense 6,7% menor do em 2019; estiagem também deve provocar atrasos na plantação do milho e reflexos na oferta e preços dos alimentos

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

A estiagem que vem deixando agricultores paranaenses preocupados desde o mês de agosto e que não favoreceu o plantio da soja em setembro deverá consolidar uma queda de 6,7% na colheita de verão em comparação com o mesmo período do ano passado. Um relatório sobre 20 estados produtores foi divulgado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) nesta semana e apontou que oito tiveram suas estimativas revisadas em comparação com as divulgadas em outubro. O Paraná, segundo maior produtor de soja do Brasil, foi um dos estados cujos dados foram alterados, porém permaneceu com a previsão de crescimento na comparação com a estimativa divulgada no mês passado. 


O governo do Paraná prepara para publicar ainda em novembro um decreto que vai regulamentar uma política de incentivo à irrigação
O governo do Paraná prepara para publicar ainda em novembro um decreto que vai regulamentar uma política de incentivo à irrigação | iStock
 


De acordo com a publicação, o estado deverá produzir um total de 20,151 milhões de toneladas de soja, o que representa queda de 6,7% em comparação com o último verão, quando foram colhidos 21,598 milhões de toneladas. Com isso, a produtividade média apontada pelo órgão, de 65 sacas por hectare em 2019, cairia para cerca de 60 neste ano. Em outubro, a previsão apontava para 20,131 milhões de toneladas. 




No entanto, a Conab prevê que o país deverá alcançar bons resultados na colheita de verão deste ano, mesmo com os atrasos no plantio ocasionados pela irregularidade das chuvas. Agora, a previsão é que 134,9 milhões de toneladas do grão sejam colhidas, um otimismo provocado pelas precipitações de outubro que, em alguns estados, colaboraram para amenizar a baixa umidade do solo. Caso haja regularização das chuvas a partir deste mês, a expectativa é de o Brasil alcance um novo recorde, apontou o órgão.   


PARANÁ

Com bem menos otimismo encontra-se o agricultor paranaense diante do clima que vem sendo registrado no estado. “Está tudo igual? Não. Está atrasado. Atrasou no Oeste em torno de 20, 25 dias e isso por um lado pode comprometer um melhor potencial das sementes, atrasar a colheita e empurrar a semeadura de milho lá para frente, para alguns já fora do zoneamento, já não tem mais seguro, expõe a riscos maiores de seca em abril, começo de maio, ou risco de eventos adversos em forma geada”, avaliou o secretário de estado da Agricultura e Abastecimento, Norberto Ortigara.


Segundo dados do Deral (Departamento de Economia Rural) desta segunda-feira (9), o estado avançou para 84% dos 5,5 milhões de hectares de área projetada. O índice representa 4,7 milhões de hectares, ou seja, entre 100 e 200 mil hectares a menos do que na mesma do ano passado. Já as projeções do Deral são menos pessimistas e apontam que o estado deverá atingir 20,5 milhões de toneladas.  


Independentemente das previsões, a certeza é de que os fenômenos climáticos registrados em 2020 deverão empurrar a semeadura do milho, o que traz o risco da exposição do grão em algumas regiões do estado à seca dos meses de abril e maio. “Ou riscos de eventos adversos na forma de geada”, preocupou-se o secretário em alusão ao fenômeno La Niña que, segundo estimativa da OMM (Organização Meteorológica Mundial), tem 55% de chances de ocorrer de maneira mais acentuada até o final do primeiro trimestre de 2021.


APOIO À IRRIGAÇÃO

Enquanto ressalta a importância do aprimoramento das técnicas de plantio direto como mecanismo de proteção às lavouras de soja na primavera e milho no verão, Ortigara adiantou que o governo do Paraná prepara para publicar ainda em novembro um decreto que vai regulamentar uma política de incentivo à irrigação. Questionado como esta medida irá ajudar os pequenos agricultores, disse que será através de projetos de apoio técnico e concessão de crédito sem taxa de juros. "Essa agressividade no juro que virá de curto prazo tem a ver com o retardo da redução dos tributos incidentes sobre todos os equipamentos, implementos para irrigação, bombas, canos, aspersores, todo o conjunto", explicou.  

 

Biden o agro brasileiro 

Enquanto o Brasil acabou sendo beneficiado a partir de 2017 com a acentuação da guerra comercial entre Estados Unidos e China, a expectativa é grande sobre as políticas que serão implementadas por Joe Biden, que durante sua campanha já havia prometido uma mudança de postura principalmente em relação ao meio ambiente e às mudanças climáticas.


Para o docente do Departamento de Economia da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Emerson Guzzi Zuan Esteves, se novas exigências com relação ao desmatamento forem efetivamente cobradas pelos norte-americanos, estas deverão ser atendidas pelo governo brasileiro em nome da manutenção das negociações.


Esteves concorda com o economista Marcos Jank, que menciona acreditar na possibilidade de novas formas de diálogo entre os Estados Unidos e a China, país que encontra-se em acelerada retomada na suinocultura, o que deverá impactar na demanda por grãos. Só para se ter uma ideia, a China viu seu rebanho cair de 350 milhões de cabeças em 2018 para 200 milhões em 2019, em razão da peste suína africana que afetou majoritariamente animais criados em quintais e que não consumiam ração. Entretanto, já encontra-se com 260 milhões. Enquanto isso, a China apresenta, também, uma transformação na produção de frangos, ovos e leite, o que colabora para gerar grande euforia na negociação de contratos futuros de soja e milho até pra 2022. 


Ao citar renomados professores, como o economista André Alexandre de Barros da Esalq (Escola Superior de Agricultura), Esteves lembra que momentos como este, em que a desvalorização do real chegou a 30% em 12 meses na comparação com o dólar, exigem grande cautela. "Vale uma frase de mercado: não ficar eufórico em momentos bons como agora e, em momentos ruins, não entrar em depressão", lembrou Esteves.




Enquanto isso, o mês setembro de 2020 ficará marcado pelo protagonismo do grupo de alimentação e bebidas na composição da maior inflação para o período desde 2003, com 0,64%. Dentre os produtos que mais apresentaram variação nos preços está o óleo de soja, com 27,5% e o arroz, com 17,98%. Porém, no acumulado do ano, o encarecimento foi de 51,30% e 40,69%, respectivamente. Além deles, o tomate, o leite longa vida e as carnes também apresentaram elevação. 

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