Criadores descartam a produção
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sexta-feira, 14 de março de 1997
Silvana Leão 
Prato caroOs escargots, que vivem na terra e se alimentam basicamente de ração, são ingredientes caros da cozinha internacionalDesânimo por parte dos criadores, produção passando do ponto de abate e, em muitos casos, sendo descartada por falta de opção de comercialização. Esta é a situação enfrentada em Mirasselva, no Norte do Estado, um dos municípios que foram incentivados por representantes da Associação de Helicicultores do Paraná (Helipar) a criar escargots.
A febre dos escargots começou há pouco menos de um ano, quando a atividade foi divulgada no município como uma opção rentável e de fácil manejo. Cerca de 20 pessoas, entre produtores rurais, profissionais liberais e comerciantes, arriscaram suas economias no novo negócio. A maioria adquiriu lotes de 100 matrizes, a R$ 5,00 cada uma, para começar a atividade. As matrizes se reproduziram, os filhotes atingiram o ponto de abate, mas nenhum caracol sequer foi comercializado.
Segundo os criadores, o prejuízo não ficou só nos gastos na compra de matrizes. Ainda houve os custos de ração, telefonemas para tentar vender a produção, e viagens. Sem falar no tempo que perdemos construindo a estrutura para criação e tratando dos escargots, informa o agrônomo Márcio Garcia, que entrou na atividade junto com dois irmãos. Ao todo, a família comprou 360 matrizes, e investiu aproximadamente R$ 1.100,00.
Márcio Garcia: ração comum e uma antiga tulha para guardar os escargots que restaram
AbandonoMárcio ainda não chegou a descartar totalmente a produção, como fez um de seus irmãos, mas já não trata de forma adequada os caracóis: parou de alimentá-los com a ração própria e os armazenou em uma antiga tulha, onde eles comem qualquer tipo de ração e algumas folhas de abóbora. Também parou de incentivar a procriação, descartando os novos ovos.
Os Garcia lembram que a helicicultura foi incentivada no município como um negócio capaz de oferecer uma renda de até R$ 1.200,00 por mês, com apenas uma hora de trabalho diário. Mas, como fizemos o treinamento e depois não recebemos assistência nenhuma, a gente acabava gastando muito mais tempo, afirma Márcio, explicando que a atividade exige cuidados diários. Entre eles a lavagem dos pratinhos de água e a ração, a limpeza das fezes das caixas das matrizes e a retirada dos ovos, que devem ser transferidos para caixas com terra nova, para a eclosão.
Hoje em dia o agrônomo praticamente não dedica trabalho aos escargots, e diz que os sobreviventes do lote certamente serão descartados. Ele só não fez isso ainda por estar em dúvida sobre o que fazer com os caracóis. Teve gente que jogou tudo no rio, mas nós estamos com medo de causar um desequilíbrio ecológico.
Fim próximoPróximo da casa de Garcia, outros três mil filhotes de escargots também são submetidos a uma verdadeira dieta de sobrevivência, composta basicamente de fubá, quirera e, de vez em quando, restos de verdura. A exemplo de outros criadores, o músico Antônio Dimas Silva deixou de comprar a ração há meses, e as caixas que servem de abrigo aos caracóis estão abandonadas em um quarto no fundo da casa. Preciso dar um fim neles, mas não sei o que fazer, confessa Dimas, que gastou aproximadamente R$ 600,00 com a compra de matrizes e fabricação das caixas.
Mário CesarO comerciante Miguel dos Santos não quer nem ouvir falar no assunto. Jogou sua produção no rio
Entre os criadores de escargot de Mirasselva que já deram um jeito de se desfazer dos lotes - e não querem mais nem ouvir falar no assunto - está o comerciante Miguel Pereira dos Santos. Gastei cerca de R$ 2.000,00 e não tive retorno nenhum. Joguei tudo no rio, conta, enquanto mostra a carteirinha - nunca utilizada - da Associação de Helicicultores do Paraná.
A venda das matrizes no município foi feita por um representante da Helipar que, segundo informações recebidas pelos produtores, não trabalha mais com o produto. O presidente da Associação (que tem sede em Curitiba), Ferenc Polena, diz lamentar a situação enfrentada pelos produtores, e se defende, explicando que não pôde cumprir o compromisso de compra dos lotes pelo atraso na liberação do projeto da Changrinet Indústria e Comércio de Escargot, por parte da Inspeção Federal.
Primeira do PaísPolena é o proprietário da Changrinet, primeira indústria no Brasil que vai abater e beneficiar escargot para vendê-lo congelado. O fato de ser pioneira neste tipo de atividade teria dificultado a liberação das atividades por parte do Ministério da Agricultura. Eles chegaram a se desculpar por não terem prática no assunto e nem parâmetros para se basearem. As informações que eles têm são sobre a indústria de pescados, que é muito diferente, diz Polena, referindo-se aos fiscais envolvidos com o projeto da indústria.
Segundo ele, agora falta pouco para a liberação. No início da semana o Ministério repassou as últimas alterações que devem ser feitas, para que a Changrinet se enquadre no rígido regulamento de exportação. Nós gostaríamos que o mercado interno absorvesse toda a produção da indústria, que tem capacidade para abate de 10 toneladas por mês. Mas provavelmente isso não será possível no início, e nós teremos que exportar, diz Ferenc Polena. Ele lembra que, para enfrentar a concorrência mundial, é preciso oferecer um produto de nível internacional.
Na última terça-feira o proprietário da Changrinet informou que na próxima semana vai entregar novamente o projeto da indústria aos técnicos do Ministério da Agricultura, e espera que desta vez tudo esteja dentro das normas. Segundo Polena, já existem cerca de 50 mil caracóis estocados, à espera de abate, que ele vem adquirindo de produtores de Medianeira, Maringá e Londrina. O presidente da Helipar garante que assim que a indústria entrar em funcionamento - o que deve ocorrer em no máximo em 30 dias -, a compra dos lotes será regularizada.
Cabe aos representantes da indústria de cada região entrarem em contato conosco para agendarmos a compra dos escargots pelo menos uma vez por mês. Para isso, porém, é importante que tenhamos o nome de cada produtor e a capacidade de produção de cada um, esclarece. Ele lembra que caso a região não conte com nenhum representante, os próprios produtores devem se unir e se comunicar com a indústria, em Curitiba. Atualmente a Changrinet, que tem uma estrutura de 980 metros quadrados de construção e capacidade para abate de 10 toneladas por mês, paga R$ 5,00 pelo quilo do produto.


