Criador deve evitar uso de animais ''parentes''
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sexta-feira, 16 de agosto de 2002
Cláudia Barberato<BR>Reportagem Local 
Ao usar um número restrito de animais para melhoramento genético há o risco de aumentar o nível de consaguinidade e parentesco entre os filhos desses animais e, com isso, aos poucos, reduzir os desejados ganhos em produção e produtividade. O alerta foi dado pelo veterinário Fábio Faria, um dos palestrantes do Simpósio Nelore 2002, evento que aconteceu na semana passada em Ribeirão Preto (SP).
Fábio Faria falou da endogamia, tema que atualmente tem deixado criadores de todo o País em alerta. A discussão em torno do níveis de consaguinidade, sobretudo nos rebanhos da raça nelore, tem chamado a atenção de criadores e técnicos, especialmente no caso das propriedades que não possuem ainda um sistema de acasalamento dirigido.
''A consaguinidade é um reflexo da mistura de sangue de animais parentes entre si. Quanto maior for esse parentesco, maiores serão também os problemas que podem surgir dele, como queda de índices de importância econômica, afetando a rentabilidade da pecuária,'' alertou.
Para tranquilizar os criadores de nelore, Fábio Faria disse que o problema também afeta outras espécies animais, e até vegetais, e não é, como se pensa, um ''mérito'' do bovino e, por consequência do nelore, raça que compõem 90% do rebanho nacional. Um alívio para os criadores.
Segundo Fábio Faria, a situação ainda não é grave, mas pode ser crítica e merece atenção. A produção animal, explicou, está baseada numa pirâmide que tem no topo o núcleo, composto de animais de elite; a seguir os animais melhoradores e, na base, o rebanho comercial. Por enquanto, o maior problema de endogamia se dá no topo e existem alternativas para que o problema não ''desça'' até o rebanho comercial.
Para evitar o agravamento é preciso trabalhar com o acasalamento dirigido dos animais que vão ser os pais da próxima geração. ''Para isso existem métodos desenvolvidos por técnicos, em softwares, que orientam a combinação de aninais nos acasalmanentos. É preciso fazer a maximização do ganho genético da próxima geração, estabelecendo o nível máximo da engomia que o rebanho pode ter. O aceitável é 1%. Isso pode ser feito pela seleção entre os pais, com maior segurança.''
O pecuarista, segundo ele, deve evitar um touro para muitas vacas e evitar mais ainda o uso de touros irmãos. No Brasil 7,4% do rebanho nelore registrado no País são filhos de apenas cinco touros, representando 0,016% dos touros existentes no País.
Para aproveitar as melhores características de um animal, alguns pecuaristas acabam cruzando ''pai com filha'', o que provoca 25% de consaguinidade. O fruto desse cruzamento, terá um peso 5% menor. Se a endogamia continuar deve ocorrer a queda de outros índices econômicos.
Se o parentesco entre os animais aumenta, temos mais e mais indivíduos geneticamente semelhantes. Esta semelhança pode atingir níveis que impeçam o melhoramento de uma população, e gerar o que se chama de limite de seleção pelo esgotamento da variação genética.
Vários fatores podem comprometer o uso de uma raça bovina e um deles é o número de ''fundadores'' que deram origem à ela. Se o número é reduzido a variabilidade genética também. Outro fator é o afunilamento, o gargalo genético, dos animais escolhidos para a formação de um rebanho melhorador.
Os zebuínos, por exemplo, têm apresentado um descréscimo na variabilidade genética. Dependendo do objetivo do pecuarista existe um número restrito de animais considerados top, que estão sendo usados e, por isso, acontece tanto cruzamento de sangue entre parentes.
''Os animais estão cada vez mais aparentados e o resultado pode ser o de animais idênticos. Ao gerar esses seres idênticos alguns atributos vão sendo perdidos pela falta do chamado choque de sangue, destinado a unir o de melhor de um animal com o do outro nos filhos desse cruzamento.''
A consequência direta de gerar seres quase idênticos é a redução das boas características econômicas. Os animais, frutos desses cruzamentos, têm menores ganhos de peso na desmama, ao ano, ao sobreano, e um crescimento menor. Há depreciação também sobre as características reprodutivas nas fêmeas que, consequentemente desmamam bezerros menos pesados e apresentam taxa de natalidade menor. Há aumento no intervalo entre os partos e redução na precocidade sexual dos animais.


