Criação tradicional precisa mudar
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sexta-feira, 05 de setembro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaGenética e índices zootécnicos das criações precisam ser alterados em favor do pagamento por qualidadeO produtor de suínos terá que resolver, a curto prazo, se quer continuar produzindo gordura ou passar a produzir carne de qualidade, a fim de conquistar os consumidores. No Brasil, segundo o agrônomo e pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia, SC, Mário Duarte Canever, existem duas suinoculturas, diferenciadas no que diz respeito à tecnologia aplicada à produção. Uma é a suinocultura tradicional, praticada por grande parte de produtores no País, com elevada produção de gordura e de baixo desempenho zootécnico.
A outra, uma atividade tecnificada, está presente principalmente no Sul do País e em expansão para os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Bahia e Goiás. Os produtores mais tecnificados têm um plantel de raças especializadas, com grande potencial de produção de carne e bom desempenho zootécnico dos animais.
Busca da eficiênciaDe acordo com o pesquisador, a partir do início dos anos 90 as alterações político-econômicas adotadas no País pressionaram toda a cadeia produtiva da suinocultura para a busca de maior eficiência. Ele afirma que se intensificaram as estratégias de redução de custos, no campo, dentro do frigorífico e na distribuição dos produtos acabados.
O processo de adaptação e de reconversão atualmente em andamento traz aumento da competitividade da cadeia e, por outro lado, duras consequências para aqueles elos da cadeia menos preparados para competir, afirma.
O pesquisador da Embrapa comenta as possíveis alterações que a cadeia produtiva da suinocultura brasileira teria nos próximos anos: Em razão da competitividade já em andamento, num pequeno exercício de futurismo, comentam-se as possíveis alterações que a cadeia produtiva poderá vir a sofrer nos anos vindouros.
Produtor especializadoUm dos primeiros reflexos, de acordo com Canever, será a diminuição do número de produtores e a elevação da escala de produção. Um exemplo: estima-se que a produção paranaense em 1996, de 3.143.490 suínos, possa ser produzida por aproximadamente 8 mil produtores, caso as unidades de leitões possuam uma média de 35 matrizes e as unidades terminadoras entreguem 3,5 lotes de 300 animais por ano.
A estimativa é de que atualmente no Estado existam cerca de 18 mil produtores de suínos. Se a previsão se confirmar, 10 mil produtores serão excluídos. Com isso a atividade suinícola a nível de produtor rural passa a ter um caráter empresarial, e os produtores excluídos terão que redirecionar a sua produção ou deixar a atividade agropecuária.
Canever fala de uma tendência de especialização dos produtores, itensificada em determinadas fases do ciclo de produção, podendo haver subdivisões das fases hoje existentes. E essa especialização seria regional.
As regiões com elevada oferta de grãos - casos de algumas localidades do Paraná - propriedades com grande extensão e topografia plana, especializar-se-iam na terminação, enquanto regiões de pequenas propriedades, acidentadas e com elevada oferta de mão-de-obra rural, especializar-se-iam na cobertura, gestação e maternidade.
Especialização da indústriaO pesquisador acha que será possível também o deslocamento de parte da produção para o Centro-Oeste e algumas regiões do Nordeste, em virtude dos menores custos de produção e da proximidade dos centros consumidores. O avanço da produção suinícola nos Estados do Sul terá um limite na legislação ambiental. A questão ambiental é um ponto crítico para a atividade.
A médio prazo haveria redução do número de frigoríficos e aumento da escala de abate elevando, com isso, as barreiras à entrada de novos frigoríficos no mercado, analisa Canever. Outra tendência apontada seria a especialização acentuada entre as indústrias correlatas da suinocultura, com a acentuação do enfoque no negócio. Com isso as partes de genética, medicamentos, rações, e outras, ficariam a cargo de empresas especializadas, e os frigoríficos somente abateriam os suínos e industrializariam a carne.
Espera-se que no futuro, diz o pesquisador, os problemas de fiscalização quanto à sonegação fiscal e, principalmente, o abate clandestino, sejam resolvidos. Com isso será possível expansão do mercado externo, desde que se consiga convencer os importadores de que não existem problemas sanitários.
Pagamento por qualidade Outra perspectiva é o aumento do consumo per capita conforme as taxas históricas de crescimento, além do aumento da produtividade com o pagamento do suíno no gancho. Os animais de baixa qualidade serão penalizados e os de boa qualidade serão premiados.
No futuro, afirma Canever, espera-se que a suinocultura cresça a taxas mais elevadas do que as verificadas nas últimas décadas, como resultado da melhoria do desfrute, atualmente estimado em 50%.
Considerando que as previsões para o futuro da atividade provocarão melhorias para a suinocultura da porteira para dentro, espera-se também, segundo o pesquisador, que a partir da saída do produto da propriedade o suinocultor tenha vantagens.Uma reforma tributária, aliada à modernização dos portos e redução dos custos de transportes, elevaria a competividade da suinocultura internamente frente aos bens substitutos e, externamente, entre os concorrentes internacionais.
ContrastesO Brasil ocupa a terceira posição no ranking mundial de rebanho suinícola, com aproximadamene 35 milhões de cabeças, que representam 3,9% do total mundial. Em contraste, é o 11º em produção, com apenas 1,7% da produção mundial.
Segundo dados do Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves, da Embrapa, o rebanho brasileiro está concentrado nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, as quais, juntas, respondem por mais de 75% do total nacional. Por outro lado, o abate se concentra fundamentalmente nos Estados do Sul do País. Em 1996 cerca de 80% dos abates sob inspeção federal foram realizados nesses Estados.


