Arquivo FolhaProdutor precisa de maior orientação sobre o local adequado para a construção dos tanques‘‘A piscicultura é um dos setores da agricultura que mais crescem no Paraná, porque se mostra uma atividade economicamente importante. Mas, está crescendo de maneira desordenada’’. A afirmação é do biólogo Mário Orsi, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade de Londrina. Orsi foi um dos palestrantes do Rolândia Peixe, evento realizado nos dias 21 e 22 deste mês, em Rolândia, reunindo produtores e técnicos para discutir temas ligados à piscicultura.
Trabalho feito pela Ministério da Agricultura e CNPq, no início de 1996, lembra Orsi, revelou que o Paraná já possuía 19 mil produtores. Hoje, mesmo sem números atualizados, ele acredita que a quantidade de piscicultores seja bem maior. Os cultivos estão concentrados no Norte e Oeste do Estado, devido ao bom clima e recursos hídricos abundantes. ‘‘O fato da agricultura não estar dando resposta econômica positiva, torna a piscicultura uma alternativa’’, explica o biólogo.
O crescimento desordenado da atividade, segundo o biólogo Mário Orsi, tem resultado em projetos mal elaborados
Projetos deficientesO crescimento desordenado da atividade, segundo Orsi, tem resultado em projetos de cultivo mal elaborados, sem preocupações técnicas e ambientais, essenciais à atividade. A preservação da água captada (privada ou pública) para abastecer os tanques, deve ser uma preocupação. A falta de cuidados pode diminuir a vazão ou secar a fonte.
As estações, usadas nos tanques para tratamento da água, podem garantir qualidade e também continuidade da vazão da nascente, evitando poluir o meio ambiente ou o próprio tanque no retorno dessa água à propriedade. O descuido ou a falta de proteção das nascentes, afirma o biólogo, resulta em prejuízo não só ambiental, mas econômico.
Geralmente o produtor capta água sem se preocupar com a continuidade da vazão. Mas é a proteção da nascente que garantirá o abastecimento na propriedade. Este trabalho pode ser feito com proteção do solo e mata ciliar (de preferência com espécies nativas), para evitar erosão. Em certos casos a proteção também pode ser feita com curvas de nível.
A importância do tratamento da água que retorna dos tanques para o manancial poderá evitar também problemas de contaminação. Instalar um esquema de tratamento, afirma Orsi, é simples e não tem custo elevado, além de proteger a própria fonte da água usa, o produtor evitará a poluição do ambiente.
Dorico da SilvaOrientaçãoEvento em Rolândia orientou produtores sobre escolha de espécies e outras informações sobre a criação de peixes
A lei prevê que toda a água, aproveitada na piscultura, tenha um tratamento para eliminar os resíduos de adubação e alimentação nos tanques de peixe, antes de retornar aos rios ou córregos. O escoamento da água sem tratamento resulta em poluição, pequena se comparada com a poluição causada por indústrias ou esgotos urbanos, mas não menos prejudicial ao ambiente.
Espécies adequadasAlém do alto teor de matéria orgânica carreada para a água, decorrente da falta de sistemas de tratamento nos tanques, o uso de espécies exóticas em tanques mal dimensionados pode causar outro problema ao ambiente. Ainda se conhece pouco sobre a biologia das espécies que estão sendo criadas. Muitas podem apresentar doenças e atingir as espécies nativas.
Há ainda problema para quem vai consumir esta água. Muitas vezes o produtor faz o tratamento, mas o problema continua no manancial e acaba retornando para a propriedade pela falta de um tratamento total. É indicado também respeitar a distância entre a instalação dos tanques e o local de captação de água. Não é permitido, por exemplo, instalar tanques a 2 ou 3 metros de distância, como acontece normalmente. A distância deverá ser calculada com base na largura do manancial. Desrespeitando a indicação, além de estar ajudando a assorear o rio, os tanques podem estourar e todo lote de peixes escapar para o manancial. Como são peixes exóticos, podem trazer doenças e causar danos ecológicos.
ConsciênciaEm janeiro deste ano, por exemplo, escaparam 1 milhão e 300 mil peixes de tanques instalados próximos da Bacia do Tibagi-Paranapanema, e não se tem idéia do dano que isto poderá causar às espécies nativas. O escape aconteceu na faixa entre Ortigueira e a divisa com São Paulo. Pode ter escapado maior número de peixes, já que foram visitadas, segundo Orsi, apenas 48 propriedades. Os tanques, no caso, não tinham estrutura compatível para grande volume de chuva e estavam instalados muito próximos dos mananciais.
De acordo com o biólogo muitos dos erros na piscultura, e o desrespeito às leis, ocorrem por desconhecimento do produtor. ‘‘Faltam pessoas mais especializadas na elaboração dos projetos. O produtor deve estar por dentro da lei de proteção ambiental, não só para proteger o meio ambiente mas, antes de tudo, para evitar, através de corretas formas de produção, danos econômicos. A atividade tem investimento de valor elevado e já começar errado não dá.’’

mockup