Maria Tereza Boccardi
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Até 2005, as sementes modificadas geneticamente deverão ocupar até 50% do mercado brasileiro. A estimativa é do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem), Ywao Miyamoto. Apesar da previsão otimista, uma sentença judicial impede a comercialização das sementes transgênicas no Brasil, até que sejam definidas regras claras para a sua produção e comercialização.
Técnicos avaliam que, para atender as exigências da sentença, o processo de adequação pode adiar em dois anos o lançamento do produto no mercado nacional. A multinacional Monsanto foi a primeira empresa do País a ter permissão especial da Comissão Técnica Nacional de Biosegurança (CTNBio) para desenvolver a soja transgênica, em cujas sementes foi inoculado o gene Roundup Ready (que torna a planta resistente ao herbicida glifosato).
A partir do parecer favorável da CTNBio, no ano passado a empresa também conseguiu o registro de cinco variedades da Roundup Ready no Ministério da Agricultura. O registro foi suspenso até que a questão judicial esteja resolvida. A CTNBio é uma comissão formada por cientistas e representantes da sociedade civil que emite parecer técnico conclusivo sobre os produtos.
AlternativaO setor de produção de sementes vê nos transgênicos a melhor alternativa econômica para a agricultura nacional e para se manter competitivo internacionalmente, com a abertura de um novo mercado. O Brasil é o terceiro maior produtor de sementes do mundo, atrás de Estados Unidos e China. Conforme dados da Abrasem, o mercado nacional movimenta cerca de US$1,3 bilhão por ano, com uma produção anual de aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de sementes.
‘‘Com a soja convencional são necessários cerca de 100 quilos de sementes por alqueire. Com a transgênica serão necessários aproximadamente 60 quilos, para obter uma produção maior e com menor custo’’, compara Miyamoto. O principal marketing dos transgênicos é a produção de safras a menor custo.
Os técnicos garantem que, com as sementes transgênicas, é preciso apenas um tipo de herbicida para combater as pragas características de cada cultura. Na lavoura com semente normal, é necessária a aplicação de até quatro tipos de herbicidas. ‘‘Tem produtor que utiliza de três a quatro produtos diferentes só para fazer o controle do mato’’, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Obtentores Vegetais (Braspov), Ivo Marcos Carraro.
Ele acredita que, com a soja Roundup Ready, é possível obter uma economia de até US$30,00 por hectare em relação à soja convencional. De acordo com Carraro, já existem cerca de 25 milhões de áreas no mundo (Estados Unidos, Argentina e Canadá) com produção de transgênicos. ‘‘Os agricultores americanos e argentinos produzem mais barato e nós vamos ficar de fora. O Brasil pode resistir, mas o mundo já aderiu’’, disse Carraro.
Técnicos e pesquisadores da área afirmam que o assunto está sendo discutido com emoção e politização, ignorando-se o estudo da ciência. Eles defendem que a biotecnologia (ciência que estuda o tema) aplicada à produção de alimentos pode revolucionar inclusive a Medicina. ‘‘A transgenia poderá produzir até alimentos com vacinas e grãos de soja transgênica, assim como outros produtos, específicos para consumo humano, para ração animal ou insumos, por exemplo’’, argumenta Miyamoto.

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