Crescimento anual ou nada feito
Jota Oliveira
De Esteio
Para tornar realidade a meta de produzir 100 milhões de toneladas de grãos nos primeiros anos do Século XXI, o Brasil precisa aumentar suas safras anuais em 10 milhões de toneladas. A advertência foi feita no começo da semana passada em Esteio, RS, por diretores da New Holland, produtora de máquinas agrícolas e máquinas rodoviárias
O mercado de máquinas agrícolas, lembraram os diretores, depende do rendimento dos produtores. Estes precisam dos equipamentos para as safras darem bons rendimentos. No entanto, no Brasil, o que se vê é um parque de máquinas sucateado, necessitando de reposição, e muito desperdício no campo devido à deterioração das máquinas. Embora ressalvando que o mercado de commodities não é para oligopólios, mas para enorme número de participantes, os diretores da New Holland prevêem que a tendência da agropecuária globalizada é ser produzida em menor número de fazendas, porém mais tecnificadas, mais eficientes e de maior rendimento, como previu o vice-presidente mundial da empresa.
Pode crescer, mas...O vice-presidente executivo e diretor de marketing mundial da empresa, Tom Kennedy, comentou que a agricultura dos Estados Unidos já está adotando conceitos e metas de produção, considerando a mudança de fazendas individuais em fazendas industriais que operem como verdadeiras empresas. Nos Estados Unidos, acrescentou, o processo caminha para a incorporação de fazendas. É a concentração fundiária, contrariando a tendência mundial, anterior, de multiplicação do número de propriedades e proprietários rurais.
No Brasil, procura-se distribuir mais terras, para maior número de lavradores que reclamam de uma situação crônica de endividamento. No entanto, outro diretor da indústria, Valentino Rizzioli, superintendente da New Holland Latino-Americana, e diretor comercial para este país, acredita que, apesar das dificuldades econômicas, o agricultor tem capacidade de crescer. O pequeno produtor tem possibilidade de crescer até mais do que o grande, afirmou. Mas, é necessário que os juros dos empréstimos para a agricultura sejam aceitáveis, continuando na base dos 8-9% ao ano, ressalvou.
O crescimento está ligado à possibilidade do pequeno comprar um trator. Para a agricultura do Brasil dar uma virada, precisa de condições melhores do que hoje, acrescentou o diretor da empresa. Ele informou que os fabricantes de máquinas agrícolas estão discutindo com o governo a renovação da frota, cuja parte velha está principalmente na posse dos pequenos agricultores. Maior fabricante mundial de máquinas para a agricultura, a New Holland é líder na venda de tratores na América Latina, porém Rizziolli lamenta que este subcontinente tenha empobrecido bastante nos últimos seis meses.
Os empresários brasileiros, por sua vez, sofreram perdas nos últimos dois anos, devido à desvalorização do real, enquanto outros países tornavam-se mais competitivos. O grande prolema é a instabilidade econômica, que torna os preços não-competitivos, porque o comprador não olha de onde vem o produto de que precisa. Ele vê a qualidade e o preço, não a origem. Demora algum tempo para desfazer uma imagem dessas. Por isso, a desvalorização não deu resultado nenhum para a New Holland brasileira, segundo Rizzioli.
Trator x automóvelO parque de máquinas agrícolas brasileiro é obsoleto, mas a frota de automóveis não, devido a um programa de renovação dessa frota. É mais fácil levar um automóvel, caminhão, um ônibus usado até o revendedor, na cidade, do que tirar uma colhedora ou um trator do campo e levar para fazer a substituição. Para a substituição dos tratores, ainda falta definir a logística, e é preciso reciclar os operadores das máquinas.
A proposta da indústria é que o programa de renovação das frotas de tratores comece em dois anos. É necessário também um programa mais agressivo de financiamento, aumentando-se o prazo de pagamento de 5 para 10 anos, com dois anos de carência. O treinamento do pessoal garantiria mais tempo de vida e produtividade para as máquinas.
O Brasil perde na colheita o equivalente a 60.000 toneladas de grãos. O País tem 50.00 colheitadeiras, número pequeno em vista da necessidade. Por isso, as máquinas são mais exigidas, trabalham mais tempo, em maior velocidade, e velocidade maior aumenta as perdas na colheita. Além disso, a soma de tempo e velocidade acima do recomendado desgasta mais rapidamente o equipamento, fato já agravado pela antiguidade e obsoletismo das máquinas. Perdem-se, assim, 15% dos grãos de cada safra, na média nacional. Nas lavouras onde trabalham máquinas de última geração a média desce para 1,5%.
Na média mundial, para 50 hectares usa-se um trator. No Brasil um trator precisa cuidar de 100 hectares, informaram os diretores da indústria. O vice-presidente mundial, Tom Kennedy, disse que o mercado de máquinas agrícolas do Brasil cresceu 20% em relação ao ano passado, mas as dificuldades econômicas em toda a América Latina causaram queda de 30% no setor. No Brasil o mercado está se recuperando e deve aumentar 10% em relação a 1998.
Riziolli disse que mesmo assim a indústria opera com folga e pode dobrar sua produção. Então, estamos prontos para colaborar nessa meta de 100 milhões de toneladas de grãos. Ele considera esse projeto tímido, pois acredita que, sem fazer força, o Brasil pode colher 130 milhões de grãos no mesmo curto prazo. O segredo para chegar a essa produção, sem incorporar novas áreas, ensina, é melhor tecnologia.O vice-presidente mundial da New Holland, Tom Kennedy, diz que as safras brasileiras precisam crescer 10% ao ano
DivulgaçãoIndústria diz que crescimento da produção depende também do parque de máquinasDivulgaçãoSupersafraDiretores da New Holland. Da esquerda para a direita: Francesco Pallaro, Valentino Rizzioli, Tom Kennedy, Pérsio Pastre e Gino Cucciari





