Depois de investir 52 dias de trabalho na criação de frangos para abate em sistema integrado com frigoríficos, avicultores paranaenses recebem, ao final do período, uma remuneração líquida que varia de R$ 200 a R$ 400. ‘‘O valor é muito baixo, menos que um salário mínimo por mês’’, avaliou o professor José Roberto Canziani, professor do departamento de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A pedido da Federação de Agricultura Paranaense (Faep), ele e o economista Derli Dossa, da Embrapa, elaboraram um estudo sobre os custos de produção e rentabilidade da avicultura de corte no Estado.
Os resultados apontam que os criadores recebem R$ 0,12 por ave de 2,4 quilos em média, enquanto o custo de produção fica em torno de R$ 0,20, com variações dependendo de cada região. Diante desta distorção, a questão é saber qual dos elos da cadeia está ficando com a maior parte dos lucros.‘‘Não sabemos se quem está ganhando é a indústria, o supermercado ou o consumidor final,’’, considerou Canziani.
Carlos Augusto Albuquerque, assessor da presidência da Faep, afirmou que o estudo tem o objetivo de dar um pontapé inicial num processo que deve ter mais desdobramentos. ‘‘Os outros agentes da cadeia também precisam fazer um diagnóstico em seus setores para identificar falhas e buscar uma solução global. O produtor não pode continuar nessa situação’’, disse.
Integração No sistema de integração, o avicultor recebe da indústria os pintinhos de um dia e os insumos necessários para a engorda, como ração e vacinas. Em contrapartida, assume as despesas com a manutenção da granja e oferece sua força de trabalho. O pagamento é feito com base no volume de animais entregues ao final de cada ciclo.
Canziani e Dossa entrevistaram avicultores de todas as regiões paranaenses. Nessas conversas, eles afirmaram que estão sendo explorados pelas empresas integradoras que, segundo lideranças do setor, pagam aos produtores recursos insuficientes que lhes impedem de crescer, transformando-os em meros empregados.
Descontentamento Produtor de frango desde 1979, Guerino Guandalini cria lotes de 60 mil aves em cinco barracões em Astorga (80 km a oeste de Londrina). Em todos esses anos, ele contabiliza ter investido US$ 120 mil no negócio que, segundo o produtor, deixou de ser rentável na década de 90.
Guerino recebe R$ 0,12 a R$ 0,14 por cada frango, enquanto o custo de produção é R$ 0,22 por ave. O dinheiro do pagamento deveria cobrir despesas com energia elétrica, aquecimento e a manutenção do barracão, além de pagar os 30% dos porcenteiros que o ajudam no trabalho. ‘‘O preço não é justo’’, disse ele, que só consegue sobreviver porque trabalha com outras atividades agropecuárias. ‘‘Uma coisa compensa a outra’’.
Na região de Astorga, há aproxiamdamente 300 granjas funcionando, mas nos últimos dois anos, pelo menos 30 já foram desativadas. O avicultor Toshiyuki Miyata está na atividade há 20 anos e diante da atual crise também pensa em abandonar o negócio.
Sua granja tem capacidade para 24 mil frangos. Na entrega de cada lote, ele recebe R$ 0,10 por ave, enquanto precisaria do dobro desse valor para cobrir as despesas e pagar o porcenteiro. ‘‘As empresas exigem investimento em tecnologia, mas com essa remuneração fica impossível investir’’, reclama. Miyata afirma que só não desativou seu aviário porque ele e a mulher recebem aposentadorias que garantem o sustento da casa. ‘‘Se não fosse isso, estaria cheio de dívidas’’, comentou.
Investir em tecnologia Domingos Martins, presidente de uma indústria que abate frangos em Arapongas (37 km a oeste de Londrina) e diretor executivo da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Estado do Paraná (Avipar), afirmou que os produtores mal remunerados são aqueles com baixos índices de produtividade. ‘‘A solução é investir em tecnologia para diminuir os custos e ganhar mais’’, observou.
Segundo o empresário, produtores e indústria devem estabelecer parcerias para viabilizar investimentos nesse sentido. ‘‘A empresa não pode sepultar o parceiro. É preciso negociar caso a caso para encontrar soluções que viabilizem a permanência do produtor na atividade’’, defendeu.

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