Armênio Khatounian: ‘‘Controle das ervas daninhas ainda é uma dificuldade na produção orgânica de sojaO setor que mais cresce dentro do mercado de alimentos hoje em dia é o de produtos orgânicos. No ano passado, nos Estados Unidos, eles estiveram entre as 10 maiores tendências de consumo e se estima que em 2010 representarão 20% das vendas de alimentos naquele país. No Brasil, já existem dados sobre um crescimento médio de 30% nos últimos anos. Trata-se, porém, de uma área que tem muito a se desenvolver em determinados segmentos.
O uso indiscriminado de agrotóxicos é um problema mais comum no cultivo de hortaliças. Como esta é uma cultura de retorno rápido, além do consumidor, neste caso, estar mais alerta para os riscos de intoxicação, as técnicas orgânicas se desenvolveram com maior rapidez entre as verduras e legumes. Mas a demanda não se restringe ao setor. As culturas de grande extensão, justamente aquelas que causam um impacto muito maior no meio ambiente, também têm se tornado alvo de preocupação do consumidor.
Este foi um dos motivos da soja ter sido escolhida para ser tema de curso realizado durante todo o dia de ontem no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), destinado a produtores e técnicos interessados em planejar e conduzir as lavouras dentro das normas internacionais de produção orgânica. Promovido pela Embrapa Soja, Iapar e Emater-PR, o evento abordou os vários aspectos da produção, como controle de invasoras, adubação verde, fertilização com economia de adubo, controle de pragas sem agrotóxico, uso de variedades, certificação e comercialização da produção.
Cresce a demandaDe acordo com o coordenador técnico do curso, Carlos Armênio Khatounian, também pesou na escolha do tema o fato da soja ser uma das culturas de maior importância para o Paraná, que é também um dos Estados pioneiros na exportação do grão produzido organicamente. ‘‘A soja é um produto multiplicativo, entra na formulação de vários produtos industrializados’’, explica.
Ele lembra que na Europa, por exemplo, a grande procura por soja produzida sem agrotóxicos é justificada pelo esforço em obter produtos de origem animal com selo orgânico. Coisa que só é possível quando a ração utilizada na alimentação dos animais abatidos é formulada com ingredientes produzidos sem uso de herbicidas e inseticidas químicos.
Segundo Armênio, outro mercado ávido por soja orgânica é o Japão, que tem uma grande demanda do grão para produção do tofu, um tipo de queijo muito consumido pelos orientais. ‘‘Aqui, este tipo de soja poderia alavancar a produção orgânica de animais, o que exigiria também o cultivo de milho sem agrotóxicos, que é mais fácil’’, lembra o coordenador do curso.
Entre as maiores dificuldades enfrentadas pelos agricultores na produção da soja orgânica, na opinião do pesquisador, está o controle de ervas daninhas. Ele lembra que a área deve ser manejada de forma que a pressão das invasoras seja baixa, e para isso práticas como rotação de culturas, plantio de adubos verdes e adoção de espaçamento adequado são fundamentais. Mesmo assim, o produtor deve ser paciente: os resultados deste tipo de manejo só aparecem a longo prazo.
Tecnologias conhecidasNo caso das pragas, o controle envolve técnicas dominadas há mais tempo; por isso é maior o número de agricultores que já produzem soja sem o uso de inseticidas químicos. Entre estas tecnologias estão o baculovirus para controle da lagarta e as vespinhas, que, ao lado das variedades mais precoces, evitam o ataque dos percevejos.
No capítulo da fertilização, as normas de produção orgânica restringem basicamente os adubos nitrogenados, não utilizados no caso da soja. ‘‘Em relação aos potássicos e fosfatados, a restrição é quanto à forma química. Devem ser utilizados materiais com o mínimo processamento químico, como os termofosfatos e os fosfatos naturais’’, explica Armênio Khatounian.
Especialista em produção orgânica, o pesquisador acha difícil falar em custo médio de produção, justamente porque ainda é pequeno o número de produtores que seguem rigidamente as normas internacionais. Armênio observa também que alguns fatores podem influenciar nos custos. O sistema orgânico não permite a monocultura, e a rotação tanto pode se mostrar mais lucrativa (em anos de bons preços para determinado produto que entrou para compor o esquema da rotatividade) como mais onerosa.
Quanto o produtor vai gastar depende também das condições da área onde será instalada a cultura orgânica. Naquelas em que a infestação de capim-marmelada ou outra erva problemática é mais intensa, por exemplo, os custos com capina fatalmente serão maiores.
De qualquer forma, tem aumentado o interesse pelo cultivo orgânico de soja. Primeiro porque há grande procura por este tipo de produto. Segundo porque os agricultores estão se conscientizando dos riscos à excessiva exposição aos agrotóxicos, além de terem passado a se preocupar com a responsabilidade que têm sobre os estragos provocados no meio ambiente.

mockup