O café irrigado deverá mudar o perfil da agricultura da Bahia, especialmente no Oeste do Estado. A previsão é do presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes do Oeste da Bahia (Aiba), Humberto Santa Cruz Filho. A entidade foi fundada em 1990, com 15 sócios. Hoje são 600 produtores, de diversas culturas, que adotam tecnologia de ponta na irrigação de lavouras, instaladas desde as margens do Rio São Francisco, até as divisas estaduais da Bahia com Goiás, Tocantins, Minas Gerais e Piauí.
Holanda CavalcantiA soja, cultura usada na abertura de muitas áreas agrícolas da Bahia, ainda ocupa grandes áreas de sequeiroNa cultura do café, viabilizada naquela região somente com a irrigação, segundo Santa Cruz, são 25 produtores com 50 pivôs implantados numa área de 5 mil hectares (ha). Todas as culturas irrigadas da região somam 50 mil hectares.
Café x soja‘‘Dez por cento da agricultura irrigada do Oeste já estão no café. O objetivo é chegar aos 20%, aproveitando as áreas já implantadas’’, diz o presidene da Aiba. A facilidade de aumentar esta participação é que o investimento básico está feito. A região tem cerca de 500 equipamentos de pivôs centrais.
Holanda CavalcantiO arroz (foto) não é mais usado para abertura de novas áreas mas é boa opção na rotação com o feijãoEle calcula que até 2005, só a região Oeste da Bahia deverá estar produzindo 1 milhão de sacas de café, em 20 mil hectares (ha), com 200 pivôs centrais instalados. Seria o dobro da produção de café de toda a Bahia. Mas esta meta demanda investimentos de US$200 milhões.
A área de 20 mil ha de café, garante Santa Cruz, poderá corresponder, em receita, a uma área de 500 mil ha de soja. A área de sequeiro de soja, segundo ele, sempre será importante para a região oeste da Bahia, mas o café, hoje, é a alternativa na produção de culturas irrigadas. ‘‘Não se quer para a região o mal da monocultura; por isso a opção pelo café. Além disso, o café representa cinco vezes mais empregos.’’
Alta tecnologiaO café que está sendo plantado naquela região, garante Santa Cruz, tem hoje o maior nível de tecnologia do País. Há consultoria de técnicos já tradicionais em produção de café no Cerrado de Minas Gerais e que estão transferindo suas experiências para a região. ‘‘Já se sabe as deficiências e as vantagens de produzir nos Cerrados.’’
Cláudia BarberatoRegião tem 5 milhões de hectares dos quais apenas 1 milhão está sendo explorado com agropecuáriaNo caso do café, embora demande altos investimentos na implantação não só de recuperação e manejo do solo, mas nos equipamentos de irrigação, a cultura tem boa produtividade em função do clima. De acordo com os produtores em Minas Gerais, por exemplo, o bom produtor de café colhe de 25 a 30 sacas por ha e, no Oeste baiano, pode-se colher de 50 a 60 sacas por ha.
Existem boas condições de sol e luminosidade o ano todo, para produzir. A cada 10 ou 15 quilômetros existem rios, com boa água. Além disso, a colheita é feita em maio e a chuva é zero até outubro. O café é colhido em período de seca e a tendência é manter padrões sem alterar a qualidade, do pé até a xícara.
Custos de produçãoO café no Oeste baiano exige tecnologia, tem alto custo de produção mas um custo por saca menor do que em outras regiões do País e até do Exterior, por causa da produtividade. ‘‘Fala-se que a terra é fraca, mas ela é apenas um mero suporte; a tecnologia que é incorporada à terra é que faz com que tenha maior produtividade.’’
O custo por saca na região é de US$60 a US$65, enquanto no resto do Brasil este custo ficam em US$100 e, na Colômbia é de US$120. ‘‘Assim, quando o preço da saca do café estiver em US$60/70, ainda estaremos empatando para produzir e o resto do mundo estará perdendo dinheiro.’’
Dois mil dólares é o investimento necessário para comprar o equipamento de irrigação e calagem para correção do solo antes de implantar qualquer cultura agrícola. Santa Cruz calcula um investimento de US$10 mil por hectare. No café, a irrigação demanda investimentos de US$1 milhão por pivô, de 100 hectares, para início da produção do cafeeiro em dois anos e meio.
Um dos limitantes no crescimento das áreas irrigadas é o insumo água. Há um uso controlado na região e, em algumas bacias, o uso é limitado a um terço para irrigantes e dois terços para indústrias de energia. Cinquenta por cento da Taxa de Juros a Longo Prazo (TJLP) dos projetos de café são bancados pelo governo baiano, como um subsídio para que o produtor tenha interesse para investir em café na região. O alto investimento para a implantação da cultura do café irrigado afasta aventureiras à procura do dinheiro fácil.
Estudos sobre as condições de águas subterrâneas na região indicam que Barreiras, por exemplo, está na região mais rica em recursos hídricos do Nordeste brasileiro. Em termos de águas subterrâneas o Oeste fica com 70% de todo o Vale do São Francisco. Os chapadões areníticos do Oeste baiano são a grande caixa d‘água do São Francisco.
Nas áreas de sequeiro há estudos sobre as condições de águas subterrâneas para dar novo impulso agrícola na região. Não se quer que o produtor fique metade do ano parado. Hoje ele planta soja em otuburo, colhe e depois fica parado. A irrigação, na cultura do café ou de frutas, pode ser uma opção de renda a mais no ano.
Marca própriaOs produtores estão desenvolvendo a marca da região - Café do Novoeste, que será apresentada não só no Brasil mas no Exterior. A produção soma 100 mil sacos a US$100 cada, o que resulta em US$10 milhões. Quer-se chegar a US$100 milhões.
Parte da produção do Oeste baiano é vendida em mercados tradicionais produtores de café, como Minas Gerais. Os produtores querem mudar este perfil. Com a cooperativa Novoeste e uma marca para o café produzido naquela região querem diferenciar o produto não só a nível nacional mas internacional.
‘‘Com o selo Novoeste, o consumidor deverá reconhecer que este café é proveniente da Bahia. Não se terá o café torrado e moído. A produção será direcionada para exportação. No Brasil não se pensa em concorrer, mas em fortalecer o produtor brasileiro.’’
Café e frutasHumberto Santa Cruz Filho chegou na região há 15 anos, pensando em produzir cana. Produz café, frutas e óleos essenciais. Tem 3 mil ha de irrigação e 10 mil ha de áreas de pastagem e sequeiro. O café ocupa 5 mil hectares.
No café tem plantio adensado de 5 mil plantas por ha, média de 60 sacas por ha. No superadensado são 10 mil plantas por ha e se pode colher 120 sacas por ha. O adensado pode ser todo mecanizado na colheita, mas será preciso mão-de-obra para os tratos culturais. Alguns produtores acreditam que o melhor é o superadensado.
A fruticultura é outra cultura viável na região. Existem 7 mil ha irrigados de frutas, e projeto para mais 2 mil ha. Já se pensa em agroindústrias na região. É mais uma atividade para pequenos e médios agricultores, com lotes de 10 ha de frutas, como diversificação na propriedade.

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