Cresce a guerra das farinhas
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sábado, 17 de novembro de 2001
Da Redação 
Antes mesmo de virar lei, a proposta de substituir em até 20% a farinha de trigo pela farinha de fécula de mandioca na composição do pão comum começa a ser adotada por panificadores em diversas regiões do país. Depois do Paraná, é a vez da Bahia aderir ao processo.
Na região do Recôncavo Baiano, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, está estimulando as padarias da região a testarem a nova fórmula. Técnicos especializados em transferência de tecnologia da empresa estão usando como principal argumento um viés social importante: tornar mais rico do ponto de vista nutricional um dos alimentos mais populares. Entretanto, o que está fazendo mesmo o sucesso da proposta é aumento da margem de lucro: é possível obter economia de 7% a 8% na produção do pão francês.
''Um quilo de farinha de trigo custa hoje R$ 1 no mercado. Já a farinha de fécula está sendo vendida a R$ 0,60'', diz Joselito Motta, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas/BA). Ele ressalta que o Brasil gasta hoje cerca de US$ 900 milhões com a importação de farinha de trigo e que o governo brasileiro subsidia 40% deste montante.
Dermânio Tadeu Lima Ferreira, pesquisador da Fundação Científica e Tecnológica da Cidade de Cascavel (Fundetec), revela que várias indústrias brasileiras realizavam a mistura de farinha de raspa de mandioca até o começo da década de 1970, mas foram à falência após o governo federal adotar a concessão de subsídios ao trigo.
As novas pesquisas mostraram que é possível adicionar até 20% de fécula de mandioca no preparo do pão francês e de até 25% na massa de pães para hambúrguer e cachorro-quente.
Teoricamente, o amido de mandioca (fécula) é parecido com o do trigo, com pequenas alterações, como o fato de este último possuir glúten, responsável pela retenção de gases durante a fermentação da massa, o que provoca o crescimento. Os pesquisadores garantem que não ocorre mudança de sabor significativa. E apontam ainda mais uma vantagem em relação ao amido da mandioca: os pães fabricados com parte de mandioca dobram o tempo de armazenamento em prateleira de três para seis horas, em relação à produção com 100% de farinha de trigo.
''A mandioca é um produto nacional e precisamos valorizar isto, ao invés de ficarmos dependendo da importação de trigo'', complementa Ferreira. Segundo dados da Embrapa, o país possui hoje cerca de 150 mil toneladas de amido de mandioca em estoques. ''As fecularias possuem uma capacidade ociosa de até 50%, o que revela a grande possibilidade de infra-estrutura que o país possui em suportar essa inovação'', acrescenta Joselito Motta.
Em tempos de instabilidade do dólar americano, a mandioca já tem como certa a vitória de uma primeira batalha na guerra das farinhas na fabricação do pão nosso de cada dia. ''A fécula e seus derivados têm competitividade crescente no mercado de produtos amiláceos para a alimentação humana ou como insumos em diversos ramos industriais alimentos embutidos, embalagens, colas, mineração, têxtil e farmacêutica. É nesse mercado que ocorre a maior agregação de valor'', explica Carlos Estevão Leite Cardoso, pesquisador em sócio-economia agrícola da Embrapa.


