Couro, um mercado de bilhões
Cláudia Barberato
De Londrina
O Brasil perde R$2,2 bilhões por ano e poderia gerar 200 mil novos empregos a partir do melhor aproveitamento do couro. A afirmação é do pesquisador da Embrapa Gado de Corte, sediada em Campo Grande (MS), Alberto Gomes.
Segundo o pesquisador, o problema está em quase todos os ciclos da cadeia produtiva. O produtor não se sente remunerado pelo couro quando vende o gado e, portanto, não capricha nos cuidados para manter um produto melhor. Os frigoríficos compram o couro como subproduto do boi e o vendem por quilo, independente da sua qualidade.
É apenas no curtume que se dá a valorização do couro e a sua classificação. As indústrias exigem matéria-prima de boa qualidade e quase sempre não encontram. Essa é a realidade da cadeia produtiva do couro, hoje, no Mato Grosso do Sul e no restante do Brasil. Para os produtores existe a necessidade de mudanças no setor e discutir o assunto é um dos caminhos para se chegar a um acordo, explica o pesquisador.
Campanha de qualidadeNo início do mês o pesquisador Alberto Gomes falou para técnicos da Federação das Indústrias do Mato Grosso do Sul (FIEMS), técnicos do governo estadual e empresários de curtumes, além de representantes do Sebrae.
O objetivo, segundo ele, é envolver esses segmentos numa campanha para valorização do couro produzido no Mato Grosso do Sul.
De acordo com informações da Embrapa Gado de Corte, Mato Grosso do Sul produz 15 mil couros por dia e, destes, apenas 8 mil são beneficiados como matéria-prima (Wet Blue).
Esse tipo de couro vale apenas 26% do chamado couro acabado, de alta qualidade, empregado nas indústrias de estofamento de carros e móveis, de calçados, de roupas e farmacêutica. Os outros 7 mil são enviados para os Estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais na forma in natura, salgado ou refrigerado, e apresentam baixa qualidade industrial.
Mais valorApesar do Mato Grosso do Sul ter o maior rebanho bovino de corte do Brasil (estimado em 23 milhões de cabeças), não há nenhum curtume no Estado especializado em acabamento de couro e estamos gerando divisas para outros Estados que fazem esse tratamento, adverte o pesquisador da Embrapa.
Segundo Alberto Gomes, se o couro acabado fosse mais valorizado no País, a riqueza gerada por essa atividade equivaleria à criação de novos empregos e uma maior receita anual. Comparado com os Estados Unidos, o Brasil perde US$500 milhões por ano.
Nos Estados Unidos, 85% do couro produzido são de primeira qualidade. No Brasil, apenas 8,5%, atendem aos padrões internacionais. A política adotada no País dificulta a saída de produtos industrializados e facilita a
exportação de matéria-prima, quando deveria ser o contrário, completa Alberto Gomes.
Para ilustrar o prejuízo, Alberto Gomes cita um dado: a China e a Itália exportam US$6 bilhões em artefatos de couro e boa parte da matéria-prima desses produtos sai do Brasil.
Falta cuidadosOs defeitos e problemas vão do campo à indústria. Apesar de existirem várias legislações sobre a preservação da qualidade do couro, elas são pouco respeitadas. Por exemplo, a marcação do gado em local inadequado corresponde a 60% dos defeitos no couro; o transporte dos animais é responsável por 10% dos danos com pregos e parafusos expostos e os outros 30%, no curtume, por salga e esfolagem mal feitas.
A valorização do couro como gerador de divisas e no combate aos
problemas sociais, fome e desemprego, é urgente, afirma o pesquisador. Faço minhas as indagações do empresário gaúcho especialista em couro, Heitor Silveira: se a fome mundial continua crescente, por que não podemos utilizar uma proteína tão rica como a do couro na produção de alimentos?, questiona. Alberto Gomes lembra que 70% do couro acabado são direcionados para a produção de calçados, roupas e artigos de luxo. A proteína do couro ainda poderia ser melhor utilizada na alimentação (gelatina, sorvete, embutidos etc.) e na indústria farmacêutica (cápsula de remédios, filmes de raio-X).





