O Brasil tem abate anual de 32,5 milhões de bovinos por ano, sugerindo que igual número de peças inteiras de couro deveriam circular pelo mercado, aproveitadas por curtumes e indústrias, absorvidas no mercados interno e externo, para fabricação de sapatos, estofamentos, vestuários, indústrias de móveis, entre outros produtos.
Se isso realmente acontecesse, o pecuarista, numa ponta, seria remunerado pela qualidade do couro entregue e, na outra, a indústria poderia ter melhor aproveitamento do produto, altamente valorizado no mercado externo.
Mas, como no Brasil o couro ainda é considerado um subproduto do boi, o pecuarista não recebe diferencial por uma peça de qualidade, sem buracos ou marcas, que possa ser totalmente aproveitada na indústria. Por isso não investe na produção de um couro de melhor qualidade. A indústria, por sua vez, alega falta de qualidade para um pagamento diferenciado da pele bovina.
No Brasil o pagamento pelo couro funciona num sistema conhecido por ''bica corrida''. O pecuarista recebe hoje, em média, R$ 2 pelo quilo do couro do animal que ele entrega no abate. Como cada esfola rende (em média) um peça de 40 kg, a remuneração pelo couro não sai por mais de R$ 80. Não há classificação ou pagamento por qualidade. No mercado internacional o couro é pago por peças, cada unidade de metro quadrado chega a valer US$80.
Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Edson Espíndola Cardoso, o Brasil precisa aproveitar melhor o potencial que existe no País para a produção de couro de qualidade.
Para aproveitar o potencial econômico do produto couro, a Embrapa, de acordo com Edson Cardoso, com apoio de entidades de pesquisa e ensino, está trabalhando na implantação do Centro de Tecnologia do Couro de Mato Grosso do Sul. A obra deve ficar pronta no ano que vem, mas antes disso a Embrapa tem realizado reuniões para discutir o assunto com toda a cadeia produtiva do couro.
O objetivo, segundo Edson Cardoso, que é coordenador do Centro de Tecnologia do Couro, é conhecer melhor a cadeia produtiva, que inicia ''porteira adentro'' e termina com bolsas, sapatos, artefatos, entre outros itens de couro. ''O couro pode valer igual ou até mais do que a carne no mercado internacional e cada elo da cadeia produtiva pode ter sua rentabilidade com isso.''
O Centro Tecnológico, garante Cardoso, deverá apoiar as atividades industriais na capacitação de pecuaristas, profissionais da agropecuária, da pesquisa e da indústria, no desenvolvimento de processos e de produtos, no tratamento de efluentes e na prestação de serviços técnicos especializados para melhorar a qualidade do couro nacional.
Hoje 60% dos defeitos que inviabilizam a utilização total de um peça inteira de couro, segundo o pesquisador, acontecem porteira adentro das propriedades. ''Vamos fazer um trabalho de conscientização com a ajuda da Confederação Nacional de Agricultura (CNA) com os pecuaristas para que melhorem o manejo do animais. Isso já é um começo. Com um couro de melhor qualidade o pecuarista poderá 'convencer' a indústria a remunerá-lo por isso. A indústria sairá ganhando na perspectiva de aumentar o volume de peças de qualidade e oportunidade de melhores negócios com o couro.''
As perdas na qualidade do couro continuam no transporte, somando 20% e mais 15% no momento do abate. Outros 5% de perdas são causados no curtimento. Em todo esse caminho, segundo especialistas da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), o Brasil deixa de ganhar na balança comercial cerca de US$ 900 milhões ao ano por não investir na melhoria do couro produzido aqui. O número é comparativo entre exportação brasileira e americana.
Os Estados Unidos exportam 85% do couro produzido com avaliação de tipo 1, ou seja, de alta qualidade. O Brasil não exporta o tipo 1 e 60% do volume produzido e que sai do País é de material de média e baixa qualidade. O melhor couro nacional soma apenas 8% de todo o produto exportado, classificado como tipo 2.

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