Jota Oliveira
Essa previsão é do presidente da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) e da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), Roberto Rodrigues. Ele tem participado de reuniões em que a necessidade de transformações no sistema, em todo o mundo, vem sendo discutida. Uma das preocupações é fortalecer as cooperativas, para elas terem condições de competir, no mercado globalizado, com os grupos privados multinacionais.
Em recente entrevista, Rodrigues antecipou à Folha Rural como deverá ser o cooperativismo do Século XXI. Explicou que a cooperativa terá que crescer, porque ‘‘uma empresa pequena pode viver na economia globalizada, mas não pode ficar do mesmo tamanho sempre’’, pois ‘‘a regra da globalização é crescer’’. Porém, o dirigente apontou uma limitação ao crescimento: a cooperativa não pode crescer além da sua área de ação. ‘‘Mas - ressalvou -, pode fundir-se com outra e outra, reduzindo o número de cooperativas e ampliando o poder de cada uma’’. As fusões farão com que, em vez de dez cooperativas numa região, fique uma só. Rodrigues acredita que ‘‘no fundo todo mundo ganhará, na escala’’.
O Brasil tem 1.300 cooperativas de produção. A Dinamarca tinha 1.400 cooperativas de leite há 35 anos; hoje tem 14, e a produção dinamarquesa dobrou nesse período.
LiderançaO presidente da ACI previu que a escolha das lideranças será uma das mudanças a serem adotadas pelo sistema cooperativista. Ele lembrou que, no modelo atual, o bom líder cooperativista é aquele que consegue interpretar o que a base pensa e fazer alguma coisa, partindo desse pensamento. ‘‘Não dá mais tempo para consultar a base. A globalização não permite mais isso’’, destacou.
Devido à globalização, fenômeno que afeta todos os países, ‘‘hoje é essencial ter agilidade; não dá mais tempo para ficar perguntando, consultando’’ as bases, argumentou Rodrigues. Exige-se agora que o cooperativista moderno seja ‘‘um visionário’’, que enxergue mais longe. É líder como esse que o produtor precisa escolher; não deve votar em presidente de cooperativa ‘‘porque ele é um sujeito honesto, honrado, correto apenas’’. Este homem que ‘‘vê além do horizonte’’ vai tomar a decisão e provar para sua base qual será o caminho a seguir. Dos cooperados, receberá o estímulo para ir adiante naquela direção.
Expurgo e crescimentoAlém de tomar decisão, escolher o caminho, o futuro presidente de cooperativa precisará ter ‘‘coragem pessoal, porque terá que separar o joio do trigo no cooperativismo, separar o cooperativista do chuperativista (aquele que quer apenas sugar a cooperativa), o mau cooperado’’. O presidente da ACI disse que devem ser ‘‘postos para fora’’ o mau cooperado, o mau dirigente, o mau funcionário, ‘‘e eliminar a má cooperativa.’’
Ele tem proposto, ainda, ‘‘alianças estratégicas, inclusive com setores que ontem eram inimigos da cooperativa e que hoje, dentro desse conceito de cadeia produtiva, a elas se agregam.
Outra necessidade do novo cooperativismo, segundo Roberto Rodrigues, é ter ‘‘relações de parceria com o Estado’’. ‘‘Um Estado sério deseja para sua sociedade pleno emprego, segurança alimentar, distribuição da renda, preservação do meio ambiente. E a cooperativa quer exatamente a mesma coisa; é o braço econômico da organização social. Então, é o parceiro perfeito para um Estado sério’’, justificou o presidente da ACI.
Roberto Rodrigues disse que é preciso haver uma relação de confiança entre o Estado e a cooperativa, ‘‘sem que essa relação implique favores ou dependência da cooperativa em relação ao Estado. Deve ser uma relação de fraternidade, de parceria’’.
Mudança no cooperativismo é um discurso mundial. Roberto Rodrigues começou a falar nessa necessidade há três anos, e por isso foi eleito presidente da ACI. ‘‘A história está provando isto. Tem que profissionalizar. Tem que ter eficiência. Não adianta fazer uma cooperativa com 500 atividades, mas uma que se dedique aquilo que sabe fazer melhor. ‘‘Só que nós precisamos também de uma profunda revisão estrutural dos instrumentos de administração, gestão. Eu não tenho dúvida nenhuma de que precisamos reduzir o número de cooperativas no Brasil, através de fusão e incorporações’’, destacou o presidente da ACI.
Enquanto as revisões não acontecem, ainda se fala no gigantismo de cooperativas; que isso seria prejudicial. Rodrigues não vê assim: ‘‘O tamanho de uma cooperativa, o número de sócios e a sua eficiência não dependem do gigantismo, do crescimento dela. A eficiência dependerá dos mecanismos de comunicação entre a base e a cúpula. Ou seja, da preservação da democracia plena do cooperativismo. O gigantismo não é problema nenhum. Nos países desenvolvidos há cooperativas monstruosas, para fazer frente inclusive às multinacionais, que são competidoras no mercado.’’

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