Antecipando a crise de energia enfrentada pelo Brasil, três cooperativas de eletrificação rural se uniram para construir sua própria usina hidrelétrica. A nova geradora, chamada de Pesqueiro Energia S.A., terá capacidade de 12 Megawatts (MW). A empresa reúne as cooperativas Eletro Rural, localizada na colônia Castrolânda, em Castro (41 km ao norte de Ponta Grossa), Cooperativa de Energia Rural de Arapoti (Ceral, a 149 km ao sul de Jacarezinho) e Cooperativa de Eletrificação Rural de Itaí, Paranapanema e Avaré (Ceripa), no interior de São Paulo.
Para o engenheiro eletricista Odílio Lobo, consultor especializado na área, o investimento na usina é uma opção viável para evitar a falta de energia, diante do racionamento no País. ‘‘Além disso, traz excelentes oportunidades de negócios’’.
Outra questão que reforça a viabilidade da iniciativa é a possível alta nos preços. Segundo ele, as usinas já existentes geram energia barata porque são antigas. ‘‘O custo de instalação já foi pago’’, explicou. Novas usinas que venham a ser instaladas para suprir a carência do mercado praticarão preços mais caros, pois o custo do investimento inicial é alto. ‘‘No caso de produtores rurais, apenas a recuperação do valor gasto já seria compensador para quem investisse em uma usina própria, pois não haveria gastos com a energia consumida na produção’’.
Insumo FundamentalLobo acredita que a questão do racionamento de energia tem sido muito enfocada pelos problemas causados aos consumidores domésticos, que segundo ele, não são os maiores prejudicados pelo problema. Para o consultor, os principais setores atingidos são os que usam a energia como insumo de produção.
‘‘Se faltar o insumo, a produção paraliza’’, opinou. Na zona rural, ele considera a energia fundamental porque os produtos agrícolas são perecíveis. ‘‘Se não forem secos adequadamente, apodrecem, azedam ou fermentam’’, disse, lembrando que setores como a avicultura ou suínocultura também dependem da energia para continuarem produzindo, seja para climatizar os galpões de aves como para triturar ração.
Na fruticultura, o insumo é importante para o funcionamento dos sistemas de irrigação. ‘‘Agroindústrias com potência de até 112 quilowatts (kwa) são consideradas consumidoras rurais, o que inclui pequenas usinas de beneficiamento, torrefadoras de café ou laticínios, entre outros’’, ressaltou.
Pesqueiro Localizada em Jaguariaíva (118 km ao norte de Ponta Grossa), a Pesqueiro Energia S.A. será abastecida pelo rio que leva o mesmo nome da cidade. As obras iniciaram em maio último e a previsão é que sejam concluídas em julho de 2002.
Rosmir César de Oliveira, coordenador econômico da empresa, informou que as duas cooperativas paranaenses atendem 461 e 549 consumidores, respectivamente e a Ceripa presta serviços para 4.696. Juntas, elas fornecem energia para 5.706 associados.
Segundo ele, o projeto começou a ser desenvolvido há três anos, estimulado por uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que regulamenta a atividade das cooperativas de eletrificação. De acordo com o documento, a partir de 2003 as associações deixarão de ter fornecimento garantido por parte das concessionárias e passarão a comprar energia direto no mercado. A redução no volume fornecido pelas concessionárias será de 25% ao ano a partir da data estipulada para começar a vigorar.
Ele informou que a falta de energia também foi prevista. ‘‘A preocupação não era relativa apenas à seca, mas também ao crescimento econômico do País, que só se concretizaria graças ao aumento no consumo de energia’’, comentou.
Energia Barata Oliveira informou que a usina vai gerar 70 milhões de quilowatts hora por ano, que totaliza volume suficiente para atender uma população de 60 mil pessoas. A princípio, a energia disponível vai ser colocada no sistema interligado para ser vendida a outros consumidores.
A decisão foi tomada em função da atual conjuntura de valorização do produto. ‘‘Vendendo para a operadora nacional do sistema, o preço obtido pela energia será mais alto. Com o lucro, vai ser possível abaixar a tarifa cobrada dos associados das três cooperativas’’, explicou.
Em caso de racionamento, porém, os cooperados não poderão contar com energia garantida. ‘‘Estaremos no sistema e teremos que obedecer à legislação. Mas a negociação para garantir o fornecimento será mais fácil, pois seremos geradores’’, analisou.
InvestimentoAs três cooperativas investiram, juntas, R$ 15 milhões. Oitenta por cento desse valor foi financiado pelo BNDES com prazo para pagamento de dez anos. Segundo Rosmir, após a amortização da dívida, a usina poderá até gerar renda para os associados.
Odílio Lobo explicou que a instalação de uma hidrelétrica, independentemente do tamanho, exige a elaboração de um pré-projeto para estudar a viabilidade do empreendimento. A análise deve ser feita por empresas especializadas, que avaliarão se a capacidade de gerar energia compensa o custo da obra.
‘‘Não basta ter rio e cachoeira, é preciso saber se a relação custo/benefício é positiva’’, disse, lembrando que uma obra viável tem custo de R$ 1,2 mil por quilowatt instalado.
Rosmir acrescentou que o projeto, para ser viável, deve ter também baixo impacto ambiental. ‘‘É recomendável evitar desapropriações e inundação de áreas residenciais ou produtivas’’, informou.

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