‘‘A globalização da economia coloca em alto risco as cooperativas’’. Essas palavras em tom de advertência, ditas pelo agrônonomo Roberto Rodrigues, presidente da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), transmitem uma dúvida de toda a sociedade: a internacionalização trará benefícios para todos, ou apenas para os países mais ricos e meia dúzia da grandes grupos empresariais que já dominam o agromercado mundial?
No mundo todo, diz Rodrigues, cooperativas dos mais diversos setores ‘‘estão lutando para sobreviver’’, mudando, adaptando-se, modernizando sua gestão. Nessa luta elas aliam-se a antigos concorrentes, ‘‘buscando sua identidade em um cenário mutante e instável’’.
Roberto Rodrigues passa o Dia Internacional do Cooperativismo na Ásia, para aonde foi há uma semana. Ele visitou vários países com os quais o Brasil tem afinidades como produzir alimentos primários e se situar no Hemisfério Sul, mais pobre do que o Hemisfério Norte e economicamente dependente.
Os países pobres, e também as nações ricas em todos os continentes, discutem a reforma do cooperativismo de modo que ele possa competir com as empresas já experientes no mercado internacional.
‘‘A globalização não destruirá as cooperativas’’, ressalva Rodrigues. Ele adverte ainda que o mercado mundial ‘‘funcionará como um maremoto’’. ‘‘Uma grande inundação está deixando as cooperativas sem ar, pelo mundo afora, mas isto será passageiro, se o setor souber se organizar’’. Os efeitos serão catastróficos para muitas cooperativas: ‘‘Quando o vagalhão desaparecer, milhares de cooperativas terão perecido...’’
O cooperativismo pode ser a ‘‘terceira via’’ do desenvolvimento, depois que o capitalismo não soube ou não quis distribuir os frutos do crescimento econômico, e o fracasso do socialismo, que nem chegou a ter riquezas para distribuir. Para ocupar aquele espaço, o cooperativismo precisa sofrer uma reviravolta que dará prioridade à educação dos cooperados, dos dirigentes e dos funcionários.
Essa questão está sendo discutida no mundo, para que seja estruturada a base do cooperativismo no início do Terceiro Milênio. Já se tem como certo que ele precisa ser melhor organizado; mais educado (formado, inclusive, por pessoal especializado e preparado para negociar além das fronteiras do país onde estiver sediado). O novo cooperativismo deverá ter, ainda, maior preocupação social com a comunidade, pois afinal, como diz o presidente da ACI, como instituição democrática a cooperativa ajuda a criar empregos e ‘‘reduz o poder político das grandes corporações econômicas.’’
Enquanto os avanços não são aprovados, parece firmar-se uma tendência de cartelização mundial, já observada no âmbito das commodities que são distribuídas em todo o mundo por umas poucas empresas com as quais o novo cooperativismo do Século 21 precisará defrontar-se. A concentração de empresas vem aumentando nos últimos anos, com destaque para as gigantes da produção de sementes e de agrotóxicos. Fusões, incorporações, associações e aquisições observam-se também no cooperativismo, envolvendo apenas instituições que já operam dentro do sistema, e empresas privadas.
O autor é editor da Folha Rural.

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