Depois de seis anos investindo na produção de soja e milho, a Cooperativa dos Trabalhadores Rurais da Reforma Agrária da Região Centro-Oeste do Paraná (Coagri), sediada em Cantagalo (80 Km a oeste de Guarapuava), decidiu mudar sua estratégia e incentivar a comercialização de leite entre seus associados e pequenos produtores da região.
A Coagri foi a primeira cooperativa fundanda pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná. Sua criação foi em 1993, mas sua história começa bem antes quando as primeiras famílias de assentados começaram a chegar na região em meados da década de 80. As próprias famílias que chegavam à região começaram a discutir a necessidade de manterem uma associação organizada para lutarem juntos contra a discriminação praticada pela sociedade que não entendia suas causas.
DificuldadesUm dos maiores problemas para os assentados foram as características da região que dificultam o plantio devido ao relevo bastante montanhoso. Os líderes do movimento entendiam que apenas a terra não garantia a viabilização da produção, pois sem dinheiro não tinham como plantar. Para fortalecer integralmente as famílias, eles decidiram fundar a cooperativa como forma de melhorar a comercialização e garantir uma renda mais justa e que proporcionasse condições de sobrevivência.
Segundo o diretor técnico da Coagri, José Antônio Custódio, naquela época as grandes cooperativas que atuam na região não demonstravam interesse em ter membros do MST como associados. Em sua fundação, a cooperativa era composta por cerca de 600 famílias cooperadas. Eles fazem questão de mencionar famílias porque ao contrário de outras associações, o MST valoriza muito o trabalho praticado pelas mulheres. ‘‘Entre nós não existe diferença entre homens e mulheres. Todos são importantes dentro do contexto agrário’’, diz.
Custódio explica que em todo Paraná já existem 11 cooperativas ligadas ao MST, todas com o mesmo objetivo de ajudar os pequenos agricultores a resolverem seus problemas. Ainda na época da fundação, os membros começaram a discutir qual tipo de cooperativa era mais viável, pois queriam uma forma de associação que possibilitasse uma discussão mais ampla dos problemas da agricultura e dos assentados.
Assentados e pequenosApesar de ser uma cooperativa ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não conta apenas com assentados. Cerca de 30% de seus associados são pequenos produtores da região, formada por 11 municípios, que têm os mesmos problemas dos demais cooperados. Atualmente, a Coagri é formada por 4,8 mil associados.
Mesmo com a formação da cooperativa, ainda existiam muitas dificuldades para conseguir financiamentos junto às instituições financeiras, por isso, em 1997, foi criada a Creditar, uma cooperativa de crédito responsável pela busca de recursos e repasse de verbas aos cooperados. Através do micro-crédito, ou seja, financiamentos de até 1 ano, a Creditar consegue atender toda demanda existente na Coagri.
De acordo com José Custódio, a diretoria da cooperativa demorou a perceber que a produção e comercialização de grãos estava sendo deficitária, e isso, estava deixando a Coagri em dificuldades financeiras. Por isso, há cerca de dois anos, decidiram outras duas atividades principais, leite e conservas.
Atualmente, os produtores da região repassam cerca de 22 mil litros por dia à central de recebimento localizada em Nova Laranjeiras. A expectativa da direção da Coagri é passar a receber 1 milhão de litros de leite a partir de outubro. Nessa central, o leite passa por uma análise para identificar sua qualidade, depois passa pelo armazenamento e resfriamento.
O produtor de leite, Itacir Martelo, conta que a maior vantagem da Coagri é o preço pago pelo litro que chega a R$ 0,30, valor maior que o encontrado em toda região. Ele complementa que repassa cerca de 600 litros por mês à cooperativa. ‘‘Para nós tem sido muito bom vender o leite para a cooperativa. A gente precisava de um pouco mais, mas não dá para reclamar’’.
Em relação às conservas, no último ano foram comercializadas aproximadamente 230 toneladas, entre pepino, cebola e cenoura. Para este ano, a colheita que se inicia no mês de outubro deverá chegar a 300 toneladas. Algo que chama atenção é que grande parte dessas culturas são produzidas através da agricultura orgânica. ‘‘Já estamos buscando selos de qualidade a nossos produtos orgânicos. A tendência é investir cada vez mais nos orgânicos porque a agricultura convencional é inviável para os pequenos produtores’’, afirma Custódio.

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