Cooperação no compasso de Lobato
A rotina das crianças da Escola Rural Municipal José Monteiro, em Arapongas, Norte do Paraná, tem sido bem mais divertida desde o começo deste ano. É que entraram no currículo as caçadas de Pedrinho, as aventuras de Narizinho e as sapequices da Emília - aquela do Sítio do Picapau Amarelo. As professoras Marlene de Lima, Sandra Duarte, Roseli Poersch e Cláudia Jacometo, responsáveis por repassar às crianças o que aprenderam e conheceram nos Encontros Literários sobre Monteiro Lobato, são enfáticas em dizer que os dias na escola estão mais agradáveis. Sem receios, afirmam que a imaginação dos alunos voa longe agora, frequenta mundos distantes e que seus textos e a forma como se comunicam sofreram uma melhora imensurável.
Parece exagero, mas para uma escola onde falta de tudo um pouco, o projeto Plante um Sorriso tem feito diferença. Sem acesso à internet ou a uma boa biblioteca - a da escolinha se resume a um pequeno armário -, onde qualquer incentivo ou atividade ''diferente'' fica por conta da iniciativa das incansáveis professoras, já que muitos pais são analfabetos, a criançada tem feito a festa com os kits de livros que ganharam recheados com as histórias de Monteiro Lobato.
E não faltam razões para tanta diversão. Muitas das histórias contadas pelo escritor têm a ver com o dia a dia dos pequenos. Helber dos Santos, de 9 anos, se identifica com o personagem Pedrinho. ''Ele gostava de caçar, eu também gosto. Era corajoso e sempre que podia ajudava os outros'', conta com bastante seriedade, para logo em seguida descrever, com um olhar bem travesso, o texto que está escrevendo: ''é que um dia tinha uma vaca correndo atrás de mim, mas eu fugi dela e me enfiei no rio...''.
Outro que se diverte com as historinhas de Lobato é Patrício Xavier, 10. Especialista, segundo as professoras, em ''confundir'' suas aventuras no campo com a dos personagens dos contos, ele relata a história em que Pedrinho sobe na árvore para mexer na casinha de um joão-de-barro e cai do galho. ''Eu também já subi em árvore e caí. Mas agora aprendi que a gente não pode subir em galho quando ele estiver seco'', ri.
Mais delicada, Giovana de Souza Cocato, 9, revela que gosta mesmo é da Narizinho. ''Ela é bonita, simpática e quer ver as pessoas sempre felizes'', resume. E conta que entre as histórias que mais gostou está a do Barba Azul, no dia em que ele dá uma festa, briga com todo mundo e a Narizinho consegue por fim à confusão. ''Eu aprendi que a gente não pode brigar nunca, a gente precisa fazer as pessoas ficarem felizes''.
Além de ler os contos de Lobato e depois escrever seus próprios textos, as crianças também desenham suas histórias. Agora também estão criando fantoches com os personagens de Lobato, vão escrever diálogos e depois dramatizá-los. ''Eles estão encantados com a criatividade do autor em misturar ficção com realidade'', destaca Marlene, lembrando do conto em que a teta da vaca vira torneira.
''E estamos trabalhando nesse sentido com eles, com as histórias que têm relação com suas vidas. Não adianta pedirmos leituras de obras que não têm a ver com a realidade deles, por isso Lobato se encaixou perfeitamente'', diz Roseli. E a professora Sandra conclui que assim ficou mais fácil de estimular a criatividade e a imaginação das crianças, cuja realidade é bem diferente da dos alunos de escolas do meio urbano.
Fora as histórias de Lobato, os alunos também estudam um pouco sobre sua vida e descobrem que o famoso autor viveu boa parte de sua vida na fazenda, sempre escreveu com um dicionário ao lado e incentivou muitos jovens escritores. ''Por que ele morreu? As crianças me perguntaram outro dia. Já pensou quanta coisa legal ele ainda escreveria para a gente, me disseram elas'', conta a professora Roseli, que tem a resposta na ponta da língua. ''No futuro, quem sabe vocês também não possam escrever coisas legais? Quem sabe daqui não saia um escritor?'', vaticina Marlene. Quem sabe?





