A veterinária de São Paulo, Maria do Carmo Arenales, está trabalhando com remédios homeopáticos em propriedades nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Sul do Mato Grosso e Norte do Paraná. Ela calcula que perto de 150 propriedades estejam adotando a homeopatia no tratamento de animais. Os medicamentos estão sendo usados basicamente em bovinos, para controle de cinco parasitas: carrapatos, mosca-dos-chifres, berne, vermes e mosca caseira.
Segundo a veterinária, os agropecuristas que estão aderindo à idéia de usar a homeopatia são produtores que já têm algum cultivo orgânico na propriedade, ou mesmo um tratamento pessoal na família à base de remédios homeopáticos. Há também a questão dos custos, já que os medicamentos homeopáticos custam de 10 a 15 vezes menos do que os tradicionais, ‘‘além do fato de os animais já se mostrarem resistentes à aplicação de carrapaticidas e bernecidas.’’
Controle‘‘Existem ainda aqueles produtores preocupados com a intoxicação provocada pelos medicamentos químicos usados para controlar os parasitas’’. O tratamento é barato e não afeta o meio ambiente, garante Maria do Carmo. Para controle de carrapatos e mosca-do-chifre são indicadas 30 gotas ou 1 ml, medidas na própria tampinha do remédio ou com uma seringa.
A seguir, é misturado a um quilo de açúcar cristal e, no campo, novamente misturado ao sal mineral que será fornecido aos animais no cocho. ‘‘O boi lambe e quando o carrapato sobe, após dois a três dias, murcha. Aí, as garças comem os carrapatos e livram os animais do incômodo. Depois de seis meses a situação estará sob total controle.’’
A idéia do uso da homeopatia no controle do carrapato é cortar o ciclo do parasita e limpar a terra, a pastagem. Com o carrapaticida, o carrapato cai do corpo do animal e muitas vezes não morre, volta ao solo e reinicia o ciclo de infestação.
CicloNo caso da mosca-dos-chifres, outro problema para o gado, o remédio homeopático ataca as larvas (formas jovens), que fazem o ciclo nas fezes dos animais. ‘‘O medicamento abaixa muito a população de moscas. Sempre haverá 10 ou 20 moscas, mas o gado só começa a se incomodar com 200 insetos, por exemplo.’’
O controle do carrapato impede que a mosca-dos-chifres faça seu ciclo nas fezes dos animais. Com isso, as reinfestações serão sempre mais brandas. ‘‘Após três a seis meses de medicação homeopática, a infestação é discreta, e não mais incomoda os animais. Quando o animal é negro, terá mais moscas ao seu redor. Animais claros terão moscas em quantidade tão mínima que é possível contá-las, assim como é possível contar os carrapatos’’. A presença de poucos carrapatos no gado não traz prejuízos, pois o animal tem como se defender e representa uma forma de imunidade contra a tristeza bovina.
Se há controle da mosca-dos-chifres e da mosca caseira, haverá também controle do berne. A veterinária explica que a mosca-do-berne, como voa apenas 100 metros, precisa de uma ‘‘mosca-carona’’, para fazer a deposição dos ovos. O ciclo do berne é interrompido, pois as formas jovens no corpo do animal não eclodem. Ficam apenas pequenos nódulos que não provocam prejuízo e nem incomodam o animal. Como não há perfurações, não acontecem também baixas na produção do animal. ‘‘Com seis meses já se pode cortar o ciclo dos bernes e conviver apenas com pequeno número de parasitas por animal,’’ garante.
CustosO controle da verminose, segundo a veterinária, também é feito nas formas jovens dos vermes. Com isso, consegue-se acabar com os vermes que estão na terra e que não completam o seu ciclo de vida no gado.
A mosca doméstica é problema não só nas instalações dos animais, ‘‘carregando’’ doenças para lá e para cá, como também na casa do agricultor. O controle dos parasitas dos bovinos reduz também o número de moscas caseiras. ‘‘O uso de veneno, além de não eliminar as moscas, acaba atingindo o solo e a mosca continua ali.’’
Para combater essas cinco parasitas o pecuarista acaba gastando entre R$ 10 e R$15 por cabeça/ano. No caso da homeopatia, garante a veterinária, o custo seria de R$1 por cabeça/ano. Ela afirma que os medicamentos homeopáticos estão sendo adotados por outros veterinários e agrônomos; existem outras formulações também para controle de formigas cortadeiras, uso em equinos, suínos e pequenos animais.
FórmulaOs remédios são feitos em parceria com uma farmácia homeopática de São Paulo. Maria do Carmo se reserva o direito de não revelar as fórmulas, mas afirma que os medicamentos são feitos à base de plantas brasileiras e nosódios (produto retirado das próprias parasitas).
Os tempos de tratamento variam de espécie animal e tipo de problema. Animal com problemas crônicos demandam tratamento de maior duração. O caso do carrapato, por exemplo, em uma semana ou 10 dias os insetos começam a murchar; a mosca-do-chifre pode ser ‘‘controlada’’ em 30 dias com redução da população; a verminose pede um tratamento mais demorado.
De acordo com a veterinária, o carrapato causa entre 20% e 30% de perdas para a pecuária brasileira. Segundo observações práticas, o boi atacado pelo carrapato perde cerca de um litro de sangue por dia, o que seria necessário para a ‘‘fabricação’’ de 10 litros de leite/dia. O berne traz prejuízo não só para a produção (o gado não engorda, porque não come), mas também ao couro dos animais. E a verminose debilita os animais, prejudicando desenvolvimento e produção.
AprovaçãoO veterinário e criador Carlos Alberto Castro Tolentino, de Presidente Prudente (SP), utiliza a homeopatia há um ano para um rebanho de bovinos da raça simbrasil (simental com nelore) em propriedade em Brasilândia (MS).
Segundo Tolentino, havia problemas não só de ataque dos parasitas nos animais, mas também no manejo de trazê-los pelo menos uma vez por semana na mangueira, para a pulverização. Agora, na última vacinação contra aftosa, feita em outubro, foi verificado que não existe mais alta infestação e nem a necessidade de vermifugar certos animais que antes eram mais problemáticos.
Ele não tem ainda, na ponta do lápis, a estatística de quanto o medicamento homeopático contribuiu no controle das parasitas que afetam primeiro a parte produtiva do rebanho. ‘‘Mas é visível a mudança’’. Tanto aprovou que hoje são também distribuídos dos medicamentos fabricados pela veterinária de São Paulo.

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