|
  • Bitcoin 103.413
  • Dólar 5,3317
  • Euro 5,5605
Londrina

Folha Rural

m de leitura Atualizado em 07/06/2022, 09:33

Contra dependência russa, Brasil aposta em fertilizantes naturais

País é o quarto consumidor mundial de fertilizantes químicos NPK e importa 80% desses insumos; agora, remineralizadores ganham espaço

PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de junho de 2022

Morgan Jezequel/AFP
AUTOR autor do artigo

Foto: Evaristo Sa / AFP
menu flutuante

Diante do risco de escassez de fertilizantes e do aumento de preços após as sanções contra a Rússia, o setor agrícola brasileiro recorre a soluções alternativas naturais para reduzir os custos de produção e garantir as safras.

O Brasil é o quarto consumidor mundial de fertilizantes químicos NPK - nitrogênio, fósforo e potássio -, utilizados nas culturas de soja, milho, algodão, cana de açúcar e café. O país importa cerca do 80% desses insumos, e quase um quarto destes vêm da Rússia, o seu principal fornecedor.

Com clima favorável, Paraná projeta safra recorde de milho

Enquanto o governo brasileiro negocia com outros fornecedores estrangeiros, principalmente Canadá, Jordânia, Egito e Marrocos, e busca reativar a produção nacional de fertilizantes, os agricultores começam a se interessar pelos chamados produtos "emergentes". Entre eles estão os remineralizadores naturais obtidos a partir de rochas ricas em nutrientes, trituradas e depois aplicadas nos campos antes da semeadura.

Em Goiás, fazenda utiliza remineralizadores. O setor agrícola brasileiro está, cada vez mais, se voltando para alternativas naturais Em Goiás, fazenda utiliza remineralizadores. O setor agrícola brasileiro está, cada vez mais, se voltando para alternativas naturais
Em Goiás, fazenda utiliza remineralizadores. O setor agrícola brasileiro está, cada vez mais, se voltando para alternativas naturais |  Foto: Evaristo Sa / AFP
 

Embora outros países, como França, Estados Unidos, Canadá, Índia ou Austrália utilizem estes remineralizadores, o Brasil, uma potência agrícola de primeira grandeza, é o mais avançado nesta área. "O Brasil é um país tropical e as chuvas carregam os nutrientes dos solos embora. O pó de rocha reconstrói os solos, o que permite a renovação de seu bioma e melhora suas performances", explica Márcio Remédio, diretor de geologia e recursos minerais do Serviço Geológico do Brasil, vinculado ao Ministério de Minas e Energia.

Paraná incentiva modernização da produção de mandioca

Aprovados como insumo agrícola por uma lei de 2013, os remineralizadores "permitem às raízes se desenvolver mais e captar os nutrientes que fortalecem o desenvolvimento vegetal", assinala Suzi Huff Theodoro, geóloga e pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília). "Rochas com perfis adequados são disponíveis em várias partes do país e o custo desse material é significativamente mais barato" que os químicos, acrescenta. O pó pode, por exemplo, ser produzido por empresas mineradoras a partir de seus resíduos, sempre que estes não contenham certos elementos potencialmente tóxicos.

De acordo com um estudo realizado no ano passado, os remineralizadores são utilizados em quase 5% da área agrícola do Brasil. Até o fim deste ano, esse número será muito mais significativo, pois a demanda junto aos 30 fornecedores brasileiros reconhecidos disparou para um nível sem precedentes. "A maioria deles já vendeu o total da produção deste ano, tanto para o agronegócio e fazendeiros médios como agricultores pequenos, entre estes particularmente os agroecológicos", afirma a pesquisadora da UnB.

Fundador do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), que reúne mais de 700 agricultores, pesquisadores e consultores, o produtor de soja e milho Rogério Vian começou utilizando produtos elaborados com micro-organismos extraídos da floresta nativa, pulverizados na época da semeadura. Estes servem para controlar pragas e ajudar as plantas a assimilar os nutrientes do solo.

Há nove anos, Vian prepara seus próprios insumos orgânicos e combina os mesmos com remineralizadores em sua fazenda em Goiás. Agora, em seus 1.000 hectares, já quase não utiliza fertilizantes químicos e, inclusive, nenhum para o cultivo de soja. "Tive uma redução de 50% do meu custo com adubação e tratamento das sementes, e minha produtividade se manteve", afirma. "O Brasil tem uma mega biodiversidade e um potencial enorme de ferramentas e jeitos de trabalhar, que não sabemos ainda que existem", acrescenta.

Irreversível

Para José Carlos Polidoro, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o país seguirá consumindo fertilizantes NPK, mas também deverá apostar nos produtos naturais. "Os fertilizantes orgânicos e organominerais, feitos com resíduos minerais, resíduos orgânicos da agroindústria e lodo de esgoto, ocupam hoje 5% do mercado brasileiro de fertilizantes, mas têm potencial para diminuir em 20% nossas importações", estima Polidoro.

O diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Reginaldo Minaré, também cita o uso crescente, por parte dos produtores de soja, de rizobactérias "que retiram o nitrogênio do ar e entregam para as plantas, muito utilizadas na cultura de soja", reduzindo assim o consumo de fertilizantes nitrogenados industriais. Contudo, a crescente adoção desse tipo de produto não está isenta de obstáculos, destaca Carlos Pitol, consultor técnico no Mato Grosso do Sul e membro do GAAS. "Os produtores encontram dificuldades com as fontes de financiamento para investir mais e com a pouca disponibilidade de orientação técnica. Porém, a mudança de sistema de produção vai crescendo e é de forma irreversível", ressalta.

Receba nossas notícias direto no seu celular, envie, também, suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1