Consumidor politicamente ativo
Consumidor politicamente ativo
Hélio Schorr
Em recente viagem internacional sentou-se a meu lado um senhor de aproximadamente 40 anos, que imaginei conhecer e que tentei identificar. Abordei-o. Identificou-se - permito-me omitir seu nome - como médico endocrinologista e professor da escola de Medicina de uma das mais importantes universidsades brasileiras. Lembrei-me imediatamente de tê-lo visto em mais de um destes tão comuns talk-shows da televisão. Daí, porque imaginei conhecê-lo.
Concluí, então, ter a meu lado alguém que faz parte do supra-sumo da elite econômica e sobretudo intelectual do Brasil. Enfim, um formador de opiniões. Apresentei-me como médico-veterinário dedicado à produção animal, com funções executivas numa empresa com interesses econômicos centrados na produção e comercialização de carne de frango. A primeira observação feita então pelo professor foi: Oriento os meus alunos e recomendo a todos os meus pacientes a não consumir carne de aves, devido aos elevados níveis de anabolizantes e promotores de crescimento utilizados na dieta destes animais.
Tive então que gastar um bom tempo, explicando ao professor que anabolizantes não são utilizados na produção de aves em nenhum lugar do mundo, e que embora sejam permitidos para algumas espécies em países desenvolvidos, sua utilização no Brasil está proibida. Expliquei-lhe também que anabolizantes não devem ser confundidos com promotores de crescimento, que nada mais são que subdoses de antibióticos não absorvíveis, desenvolvidos para agir à luz do intestino das aves, melhorando a absorção de nutrientes. Se não são absorvíveis, não deixam resíduo na carne e, portanto, não atingem o consumidor, sobretudo seus pacientes.
Refleti muito sobre o nosso diálogo e fiquei inconformado com a falta de informação do nosso formador de opiniões. Chegando a meu destino, participei de um congresso de técnicos em que uma das melhores apresentações foi do Dr. Wesley V. Jamson, professor da Universidade de Arkansas, que num brilhante trabalho de pesquisa identificou o que ele chama de Consumidor Politicamente Ativo, e a importância de informá-lo correta, adequada e eficientemente.
O consumidor politicamente ativo foi caracterizado como: do sexo feminino (embora os homens estejam ficando mais ativos); idade entre 25 e 40 anos; solteiro ou descasado; curso superior, nível de renda média para alta; leitor de pelo menos um jornal ao dia; tem atividade política; participa de passeatas; é preocupado com saúde, educação e ecologia. Julga-se bem informado, eclético, embora não tenha conhecimentos técnicos suficientes para absorver, elaborar e firmar uma opinião própria sobre a maioria dos assuntos. Está, portanto, sujeito a receber informações que quando equivocadas ou inadequadas podem provocar prejuízos incalculáveis às empresas ou até mesmo a setores da Economia. O consumidor políticamente ativo é formador de opinião. É dele que surge o boato. Ele dita a moda.
O consumidor políticamente ativo é um ecologista e quer saber, por exemplo: como estamos produzindo nossos alimentos? estamos destruindo a floresta tropical? estamos fazendo conservação de solos? quais são e em que quantidades estamos usando os venenos? que destino estamos dando aos dejetos de suínos, bovinos e aves? estamos usando adequadamente a energia não renovável?
O consumidor politicamente ativo é um defensor do bem-estar dos animais e quer saber: com que idade estamos desmamando os leitões? qual a densidade de aves alojadas em um aviário? que tipo de alimento ou medicamento estamos oferecendo aos animais? usamos ou não iluminação artificial? como estamos transportando e abatendo os animais? enfim, o consumidor quer saber se estamos ou não maltratando os animais.
O consumidor politicamente ativo cultua o corpo e está preocupado com a sua saúde e a saúde das futuras gerações. Quer saber, entre outas coisas: estamos usando anabolizantes, antibióticos ou outros produtos que coloquem em risco sua saúde? estamos usando conservantes, corantes e estabilizantes na preparação dos alimentos? como estamos combatendo as contaminações bacterianas?
Exemplo clássico de informação equivocada dirigida aos consumidores politicamente ativos e difundida por todo o mercado é a BSE (Encefalopatia Espongiforme Bovina) ou doença-da-vaca-louca, que aniquilou a pecuária de corte do Reino Unido e de grande parte da Europa. Baseado unicamente numa hipótese de contaminação de humanos, todo o mercado de carnes do mundo foi atingido.
Outro exemplo é o suíno, que equivocadamente é responsabilizado pela elevação das taxas de colesterol e difusão de cisticercose entre humanos. Sabe-se hoje que pessoas unicamente vegetarianas estão mais sujeitas à cisticercose do que os consumidores de carne suína.
A introdução de hormônios sintéticos de crescimento (somatotropina bovina) em alimentos para gado leiteiro nos Estados Unidos, e a utilização da engenharia genética para produção de vegetais transgênicos na Europa e Estados Unidos estão provocando debates intensos entre produtores e consumidores de alimentos.
A mídia também tem seu papel. Quando grandes redes de televisão ou jornais se propõem a prestar um serviço ao público, analisando a qualidade de um alimento e se propõem a prestar um serviço público, analisando a qualidade de um alimento e difundindo, para milhões de consumidores, os resultados obtidos, têm que ter responsabilidade extrema - sem falar de boa-fé - já que estão atingindo um mercado como um todo. Qualquer equívoco pode atingir mortalmente empresas sólidas, idôneas, geradoras de impostos, empregos e renda. A responsabilidade da mídia é imensurável.
De alguma forma a agropecuária vem se tornando vítima de seu próprio sucesso. O avanço tecnológico que tem premiado o consumidor com preços em queda e redução do risco de fome, faz também com que esse mesmo consumidor possa dedicar sua atenção à qualidade dos produtos que lhe são oferecidos. Decorre daí que ao produtor não basta vender unicamente o produto; é preciso sobretudo suprir o consumidor da informação que ele demanda.
O autor é médico-veterinário em Londrina.





