‘‘O momento é para cumprimentar as organizações que lutaram para conseguir o certificado de área livre de aftosa e, de maneira bem simpática, chamar a atenção para o consumidor interno, propondo-lhes um novo desafio para que sejamos respeitados como gente séria que quer assegurar a qualidade sanitária dos alimentos.’’ A opinião é do professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, de Campinas (SP), Pedro Eduardo de Felício.
O discurso unânime de técnicos e lideranças do setor produtivo de carnes, depois da liberação do Paraná e outros Estados brasileiros como áreas livres de febre aftosa foi o de que isso significaria aumentar as exportações brasileiras. A liberação foi obtida junto a Organização Internacional de Epizootias (OIE), órgão internacional do comércio que trata do controle de questões sanitárias na área animal e produtos de origem animal.
A partir da liberação, ainda segundo o discurso e apelo de parte da cadeia produtiva da carne e representantes do governo, o pecuarista brasileiro teria que elevar produtividade e, principalmente, garantir qualidade a fim de atender as exigências do mercado externo, como se o mercado consumidor interno não merecesse a atenção devida.
E o consumidor interno? No episódio da vaca louca, por exemplo, em nenhum momento se falou do consumidor. O que se fez foi garantir que a carne de animais importados de países onde a doença existe não havia sido exportada pelo Brasil, mostrando uma preocupação apenas com o mercado externo. Porque o Brasil teria que passar a produzir qualidade somente para abastecer outros mercados? E o mercado interno, que consome 90% da produção de carne brasileira não merece importância? Porque os esforços em qualidade só passaram a ser exigidos ou divulgados, a partir de uma possível ampliação das exportações?
População deve fiscalizar Segundo o professor da Unicamp, apesar do potencial para ampliar as vendas externas não se pode esquecer do mercado interno, valorizando os consumidores e conquistando aumento no consumo. Um bom sistema de defesa animal e de inspeção sanitária é fundamental e atende as duas necessidades de uma só vez: exportar e abastecer o mercado interno com produto de qualidade.
‘‘Penso que vamos ter que entrar num era de criação de conselhos municipais de consumidores que verifiquem tudo que possa prejudicar a saúde da população, a começar da água, passando pelo leite, hortaliças, carnes e outros’’, afirma Pedro de Felício. Segundo ele, na verdade, exportar é uma necessidade não só pelas divisas que traz, mas porque ‘‘nos coloca em elevado padrão tecnológico e isso é um bom reflexo também para o mercado interno.’’
Felício considera que a melhoria na pecuária e na indústria exportadora é um benefício para o mercado interno e, consequentemente para o consumidor. ‘‘Esses frigoríficos que exportam vendem também quase toda a produção no mercado interno, tirando algo entre 5% e 20% para a exportação.’’
O País, de acordo com Felício, tem vocação exportadora e isso serviu para conscientizar, em todo esse processo da febre aftosa, pecuaristas, técnicos da assistência oficial e privada, e mesmo a população, de que existem condições de sermos competitivos lá fora e consumir aqui produtos de alta qualidade.
Abates clandestinosSegundo o professor da Unicamp, o IBGE de 2000 registrou 17,4 milhões de abates inspecionados de bovinos em todos os níveis de inspeção e o Brasil abateu cerca de 32 milhões de cabeças. Os números mostram que ainda existe muito abate clandestino no País.
Os estabelecimentos que comercializam produtos têm que garantir condições de higiene e sanidade. O consumidor deve cobrar da vigilância sanitária e do poder público a fiscalização e denunciar a clandestinidade.
É preciso que as inspeções estaduais e municipais estejam sempre sob auditoria de autoridades federais ou senão acabarão servindo apenas para oficializar a clandestinidade. Depois que o Governo passou a controlar somente os serviços interestaduais e de exportação, muitos Estados e municípios não investiram no serviço de inspeção e vigilância sanitária e, sem estrutura não têm condições de manter um trabalho mais eficiente.
Técnicos da área reconhecem que é praticamente impossível manter higiene e rigor sanitário em matadouros pequenos, que abatem o pior gado de descarte, com alta incidência de doenças. Muitas vezes o poder político e econômico local corrompem e são coniventes com esta situação.
Sujeira no abate Carne e leite de um bovino com aftosa por exemplo, mesmo a doença não sendo considerada uma zoonose séria, não podem ser consumidos. A aftosa predispõe a outras doenças que podem afetar o humano. Mais sério é o caso de sujeiras e resíduos nos locais de abate sem fiscalização, que contaminam a carcaça bovina e provocam intoxicação alimentar nas pessoas. Um exemplo é o crescimento da incidência ou ocorrência de cisticercose na carcaça bovina, problema antes restrito aos suínos, e que hoje em dia é cada vez mais comum nos bovinos.
As cadeias produtivas do frango e do suíno, mais organizadas no que se refere a garantir a sanidade do produto, conseguiram, mesmo que seja às custas da centralização ou da fusão de empresas que hoje dominam o setor, viabilizar qualidade e sanidade na sua produção.
No caso do frango, a organização do setor fez com que a carne seja quase uma unanimidade na mesa do brasileiro e o País o segundo maior exportador mundial. Os produtores de carne suína caminham para conquistar mais mercado, não só interno, desmitificando o consumo da carne, mas exportando mais.

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