Construindo um alicerce no campo
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sábado, 10 de dezembro de 2005
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Xícaras, bules e pratos com salgadinhos já estão caprichosamente postos na mesa da varanda quando chegamos à propriedade rural de Narciso Garcia Campos, durante uma manhã ensolarada no município de Cornélio Procópio, norte paranaense. Mais que uma cortesia, é a chance ideal que o agricultor encontra para apresentar sua menina-dos-olhos: o ''Café do Narciso'', produto da minifábrica da família. Aos 53 anos, com um entusiasmo quase juvenil, o produtor quer saber o que acharam de seu café, fala em conquistar espaço com sua marca e atingir um mercado mais exigente.
Percorremos apenas mais 40 quilômetros e nos deparamos com uma realidade completamente diferente. Nelson Bianchini, 55, nos recebe no sítio em Ibiporã (14 km a leste de Londrina) com a mesma delicadeza, mas não esconde um semblante cansado. Lembra que foi bancário, funcionário de prefeitura e dono de mercearia; no campo, experimentou piscicultura, avicultura, olericultura, plantação de grãos. Hoje, anuncia planos de arrendar tudo quando a aposentadoria oficial sair. ''Quero aproveitar um pouco mais a minha vida e a dela'', diz, referindo-se a Desolina, 54, companheira de batalhas há 34 anos.
As propriedades de Nelson e Narciso são apenas as duas primeiras porém já tão emblemáticas paradas de um roteiro que revela o que existe por trás dos indicadores econômicos que vemos todos os dias nos jornais. Sim, a agricultura familiar está nos números que apontam o crescimento do agronegócio, as toneladas de alimentos produzidos, a pujança dos campos brasileiros. Mas das porteiras para dentro, há homens e mulheres com diferentes histórias de vida, batalhas, anseios, potencialidades, recursos e limitações. Uma teia complexa que motivou a implantação das Redes de Referências para a Agricultura Familiar no Paraná, cujo trabalho a Folha mostra nesta edição especial.
De 22 a 25 de novembro, a reportagem percorreu mais de mil quilômetros de estradas com equipes da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Programa Paraná 12 Meses, visitando 11 pequenas propriedades participantes das Redes e uma em fase de inserção. Foi a primeira excursão - desde a implantação do projeto, em junho de 1998 - envolvendo todos os extensionistas e pesquisadores responsáveis pelo trabalho.
A idéia do projeto é relativamente simples: pequenas propriedades representativas de cada região são analisadas, submetidas a um planejamento e, depois de passar por melhorias, servem de referência para outras propriedades em contextos similares. Ao invés da atenção a problemas isolados, elas contemplam a propriedade como um todo, incluindo aspectos naturais, econômicos e sociais; no lugar do imediatismo que costuma marcar as ações governamentais, soluções a longo prazo; em todo o trabalho, participação de três agentes: pesquisa, extensão e agricultor.
Do modelo francês no qual se inspiraram, as Redes paranaenses carregaram o humanismo que é marca daquela nação, conforme assinala o coordenador mesorregional do projeto na região norte, Sérgio Luiz Carneiro. Daí a preocupação com questões como a qualidade de vida das famílias de pequenos agricultores, a possibilidade de lazer e aprimoramento, a participação da mulher e a sucessão.
A impressão que temos a cada visita é de que os extensionistas diretamente responsáveis pelas propriedades tornam-se membros das famílias. Para os pesquisadores, a maior satisfação é ver seus trabalhos tendo aplicação real nas propriedades.
Os profissionais deixam claro, contudo, que os principais atores das mudanças observadas ao longo dos sete anos de atuação das Redes são as próprias famílias. ''Não existe fórmula mágica, é preciso buscar soluções para cada situação. Nisso, a persistência dos pequenos produtores é fundamental'', afirma o coordenador estadual do projeto pela Emater, Diniz Dias Doliveira.


