Conservação biológica nos silos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 1997
Vânia Casado Curitiba 
A Universidade Federal do Paraná (IFPR) também está empenhada em descobrir alternativas para reduzir as perdas da agricultura depois da colheita, principalmente na propriedade do pequeno produtor, onde os prejuízos chegam a 30%. Através de pesquisas patrocinadas por empresas como a Antártica, Cooperativa Agrária Mista Entre Rios, de Guarapuava e Keepdry (indústria paulista), o setor de Ciências Biológicas da UFPR vem testando a aplicação de pós inertes na conservação de grãos como feijão, milho, trigo, sorgo, aveia, soja em silos ou mesmo nas pequenas propriedades. As pesquisas estão recebendo um apoio estimado entre US$ 25 mil e US$ 30 mil por ano, por projeto.
Trata-se de uma alternativa de controle biológico, já que o combate aos insetos e carunchos feito com os pós inertes é físico e não químico. O controle atual, através de produtos químicos, provoca resistência nos insetos e obriga o produtor a arcar com altos custos para conservar o grão em bom estado por um longo período.
AlgasA bióloga Luciane Marilisi Dupchak, mestre em Ciências Biológicas com atuação em Entomologia, desenvolveu pela primeira vez no País a aplicação de pós inertes para conservação dos grãos de trigo. A pesquisa de Luciane comprovou que o produto é totalmente eficaz para conservação dos grãos em silos por um período de até dois anos, dispensando o uso de lonas plásticas, vedantes e outros produtos químicos normalmente utilizados.
O trabalho de Luciana Dupchak foi orientado pelo engenheiro agrônomo Flávio Antônio Lazzari, professor orientador do curso de pós-graduação em Entomologia da UFPR, que vem mantendo diversos contatos entre cientistas e empresas canadenses, norte-americanas e australianas que já trabalham com pós inertes.
O produto é natural, tem como princípio ativo os pós inertes extraídos de algas diatomáceas (diatons) que são depositadas há milênios pelos microorganismos marítimos. Essas algas são encontradas com mais facilidade na Austrália, na Califórnia (EUA) e no Brasil (Nordeste). As algas se apresentam na forma bruta e precisam ser testadas para saber se têm capacidade de remover a cera que encobre os mosquitos, já que agem fisicamente. Se o teste for positivo, essa matéria-prima vai para a indústria que recebe uma formulação à base de feromônios (atrativo sexual ou alimentar) para atrair os insetos.
A grande vantagem dos pós inertes, segundo o professor Lazzari é sua ação física. Ou seja o pó absorve a película de gordura que envolve todos os insetos. Em seguida eles perdem água e morrem por desidratação. Não deixa resíduos químicos, o que atende plenamente a preocupação das indústrias de alimentos, de todo o mundo, que querem banir a aplicação de produtos químicos na conservação e composição dos alimentos, justificou o professor. Além de insetos e carunchos, os pós inertes são eficazes no combate a formigas em residências e controle de baratas.
LimpezaFlávio Lazzari recomenda que antes de aplicar o produto num silo, deve ser providenciada a limpeza do local e das estruturas de apoio. Principalmente se já estão velhas, porque os insetos adoram se instalar em frestas, justificou. Depois disso, a parte inferior do silo deve receber uma pulverização do pó numa proporção de 8 a 10 gramas por metro quadrado. Em seguida, joga-se o grão e quando atingir a altura de 1,5 metro antes de completar o silo, o pó deve ser aplicado novamente.
Esse processo é denominado de envelopamento, porque o inseto costuma invadir o grão por baixo e por cima. Portanto, se as extremidades estiverem bloqueadas, o restante estará protegido, garante Lazzari. Para conservar o trigo, ele recomenda a aplicação de 200 a 250 gramas do pó para uma tonelada de grão. Mas, salienta que o grão precisa estar seco, com índice de umidade inferior a 15,5%. Ele classifica o produto como poderoso em eficácia, já que permanece até dois anos, se a carga não for remanejada.
As vantagens do pó inerte são: ausência de elementos tóxicos; não provoca silicose (o princípio ativo não contém sílica), tem efeito sobre a maioria dos insetos e não desenvolve resistência como os produtos químicos. É facilmente removível em água e dispensa o uso de maquinaria especial e grandes equipamentos para conservação. Também não tem carência para manusear os grãos, uma medida que as pessoas não obedecem mesmo se tratando de produtos químicos, acrescenta Lazzari.
Os pós inertes são comercializados pela empresa Keepdry, de São Paulo, que já entrou com processo no Ministério da Agricultura para reconhecimento dos produtos. Lazzari acredita que não haverá problemas para liberação, já que o produto é totalmente natural e dá grande segurança ao usuário, mesmo se ele errar na dosagem. Ou seja, sua eficácia não será alterada se a dosagem for maior ou menor do que a recomendada.
A indústria já testou a aplicação dos pós inertes para trigo mole, duro, milho mole, semiduro e duro, e sorgo. Agora está testando a utilização do produto na cevada e no malte. Para isso as empresas interessadas nas pesquisas estão contribuindo com o equivalente a R$ 25 mil e R$ 30 mil por projeto ao ano. Duas empresas americanas e uma australiana já manifestaram interesse em se instalar no Brasil para fabricação do produto, quando o Ministério da Agricultura conceder o registro do pó. Agora falta treinar o sistema de extensão rural brasileiro, para recomendar e orientar o pequeno produtor, no uso dessa tecnologia.
Flávio Lazzari informou que atualmente está orientando pesquisas desenvolvidas pelos biólogos do curso de mestrado, para conservação com pós inertes em cevada, malte, milho e aveia. Essas pesquisas interessam a grandes indústrias que desejam ter acesso a processos naturais de conservação de alimentos.


