Confiança do agricultor faz produção de trigo avançar
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sexta-feira, 27 de junho de 2003
Especial para a Folha 
Curitiba - ''É inconcebível um País agrícola com as dimensões do Brasil não plantar metade do trigo que consome.'' A frase, do produtor gaúcho Jânio Henrique Siqueira Pacheco, resume a motivação que deverá levar o Brasil à produção de 4,5 milhões de toneladas do cereal neste ano.
O volume está longe das 6,2 milhões de toneladas obtidas na safra 1986-1987, mas representa um crescimento de 55% em relação à produção do ano passado - o maior entre as principais culturas brasileiras. Atende ao plano do governo federal de atingir, em poucos anos, a auto-suficiência de trigo, abandonando o desconfortável posto de maior importador do grão no mundo. No cenário de hoje, com uma população de 170 milhões de habitantes, o País precisa de 10 milhões de toneladas por ano.
Se depender de Pacheco, dono da Agropecuária Esmeralda, de Carazinho (Norte do Rio Grande do Sul), a obtenção dessa meta não está muito distante. Confiante na manutenção da política de preços mínimos (R$ 400 a tonelada no Sul e R$ 450 nas outras regiões), no clima e na perspectiva de boa produção, ele ampliou, de 180 para 250 hectares, a área destinada ao trigo.
''O produtor não quer que o governo o apadrinhe, mas não adianta produzir e não ter para quem vender na colheita'', diz Pacheco, de 42 anos, presidente do Sindicato Rural de Carazinho, entidade que reúne 350 agropecuaristas da região.
Além da intenção de lucro, Pacheco tem uma explicação patriótica para justificar a aposta no trigo: ''Quando plantamos trigo, giramos a economia do País e impostos para o governo e poupamos divisas com o que deixa de ser importado''.
O Brasil gasta anualmente US$ 900 milhões com a importação do grão, base da alimentação e matéria-prima para pães, massas e biscoitos.
Os agricultores brasileiros já descobriram que, além de uma valorizada cultura de inverno, o trigo é uma das melhores opções de cobertura para o plantio de verão.
Como a maioria dos produtores rurais já adota o plantio direto - feito sobre a palha da cultura anterior, sem remover a terra -, os restos do trigo viram adubo e massa para a soja ou o milho que serão plantados depois.
Quer dizer: mesmo que uma geada impeça totalmente a colheita, o trigo dá lucro. ''O trigo é a solução para o plantio direto, a melhor cultura safrinha para cobertura'', ensina Benami Bacaltchuk, chefe-geral da Embrapa Trigo, sediada em Passo Fundo (RS).
A experiência do produtor Marcelo Degraf, 37 anos, de Ponta Grossa (Centro-Sul do Paraná), confirma o que os estudos técnicos apontaram. ''O trigo controla as ervas daninhas, melhora o plantio e reduz a quantidade de adubo da cultura de verão. Ele me dá uma remuneração melhor na soja'', enumera Degraf, que comanda duas propriedades da família, que somam 2,8 mil hectares, em Ponta Grossa e Paranavaí (Noroeste do Estado).
Mesmo tendo perdido totalmente a colheita do trigo no ano passado, devastado pela geada da primeira semana de setembro, Degraf decidiu manter neste ano o plantio de 400 hectares com o grão. E tem uma ótima explicação: na área ocupada com trigo no inverno, a soja rendeu 62 sacas de 60 quilos por hectare, 20% a mais que as 52 sacas obtidas no terreno em que havia sido plantada aveia, usada como pastagem para o gado.
A exemplo de Degraf, o produtor Daniel Vriesman Sobrinho, também de Ponta Grossa, sofreu perda total do trigo no ano passado, mas plantou a mesma área - 600 hectares - nesta safra. ''O trigo é aposta. Mesmo que se perca dinheiro, ele beneficia a cultura de verão'', afirma Vriesman, de 47 anos. Descendente de holandeses, ele é de uma tradicional família de pecuaristas de leite, que decidiu apostar na agricultura.
Vriesman defende a necessidade do seguro agrícola para dar mais tranquilidade aos produtores de uma cultura de risco como o trigo. ''Se tivermos seguro e financiamento suficiente, o Brasil chega logo à auto-suficiência de trigo.''
Segundo previsão da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), até 2007 o País deverá estar produzindo metade de seu consumo interno que, naquele ano, chegará a cerca de 12 milhões de toneladas. Se depender dos ganhos de produtividade, essa meta será atingida.
Neste ano, as colheitadeiras deverão tirar do solo uma média de 1.942 quilos por hectare, 36,8% a mais que os 1.420 quilos da safra passada. Esse crescimento supera o incremento de área plantada, cuja previsão é de que sejam atingidos 2,31 milhões de hectares em 2003, 13% a mais que os 2,05 milhões de hectares do ano passado.
(Reportagem produzida pelo jornalista Valmir Denardin e pelo fotógrafo Albari Rosa, da assessoria da New Holland) ®MDNM¯


