A conectividade é um dos primeiros gargalos a serem superados, pois muitas vezes o acesso à internet no campo não existe
A conectividade é um dos primeiros gargalos a serem superados, pois muitas vezes o acesso à internet no campo não existe | Foto: Shutterstock



Toda essa movimentação da agricultura 4.0 – que ganhou muita força com o cenário de startups no agro – teve um fomento bem significativo a partir de 2014 e não parou mais. Segundo Sérgio Marcus Barbosa, engenheiro agrônomo e gerente executivo da ESALQTec, a Incubadora Tecnológica da USP, até a crise econômica auxiliou esse aquecimento. "O empreendedorismo ficou muito forte com a crise. Gente muito boa de mercado teve que empreender e trouxe conhecimento para abrir negócios. Essa onda de empreendedorismo claro olhou para o setor que estava se mantendo mais forte, no caso o agro", explica ele.

Apesar de um salto de relevância dentro do setor e um potencial enorme (o Brasil faz agricultura em seis biomas diferentes), essa onda de tecnologia ainda precisa evoluir e enfrenta vários gargalos. "O primeiro deles é relacionado à conectividade, já que toda essa tecnologia se baseia nisso. Muitas vezes não temos essa conectividade (à internet) dentro da cidade, imagina no campo, em áreas mais distantes."

Outro ponto importante é que as propostas de valor das tecnologias precisam ser muito bem definidas. A grande questão é: tudo isso vai de fato "resolver as dores do cliente, reduzindo custos e aumentando os lucros?". "Também é preciso (com toda essa tecnologia) reduzir os ativos do produtor, como por exemplo fertilizantes, defensivos, máquinas e até o tamanho da terra", complementa Barbosa.

A integração de tecnologia é outra situação pouca analisada e que dificulta a evolução da agricultura 4.0. Basta pensar nos sistemas operacionais de celular – Android e iOS – que não conversam entre si. Na agricultura, as empresas de "cores diferentes" oferecem cada uma seus pacotes tecnológicos, sem integração entre eles. "Os produtores não gostam disso, porque não conseguem integrar essas informações e transformá-las em inteligência para tomada de decisão. É preciso compor um grande sistema tecnológico, com as startups sendo eficientes num ponto, que junta a outro e integra essas tecnologias. O produtor não quer uma tela de celular cheia de coisas e pouco eficientes."

Aliás, o gerente executivo da ESALQTec salienta que atualmente poucas tecnologias têm, de fato, sido relevantes para o produtor, pensando claro, no tamanho do negócio no País. "Hoje o que mais se usa são as plataformas de gestão, de controladoria, análise de produtividade. O que vai crescer muito são os chamados market places, que são plataformas de comercialização, que diminuem as distorções de informação (chamadas de assimetria), e assim se consegue negociar melhor os produtos. Outro ponto são as certificações digitais, como o barter digital, em que os negócios são agilizados."

Tudo isso claro, sem esquecer dos pequenos produtores, o que torna o desafio ainda maior. "Temos um problema chamado escalabilidade, que é uma realidade do agronegócio. Uma startup quer pescar o peixe grande, é uma estratégia comercial. Por isso a importância muito forte das cooperativas, dando essa escalabilidade, juntando pequenos e médios produtores e assim formar um grande e atraia as oportunidades da agricultura digital."

Por fim, Barbosa acredita que saltaremos para um novo patamar num futuro próximo. "Já estamos pensando na agricultura 5.0. Teremos uma mudança de conceito, com a presença de genética e os chamados nano sensores. Eles vão se somar à agricultura digital e teremos algo extremamente moderno. Trabalharemos nas plantas de forma mais individualizada, o nano sensor vai dizer as necessidades de cada uma delas, ativaremos uma pulverizadora de baixo volume que vai avisar quantas gotas precisam cair ali. Isso não está muito longe de acontecer." (V.L.)

mockup