Compromisso com o trigo
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sábado, 04 de dezembro de 2004
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
O trigo, grão sagrado, matéria-prima para uma infinidade de alimentos presentes todos os dias na mesado brasileiro, está abandonado. Os plantadores de trigo do Paraná, estão preocupados. Apesar da eficiência do campo, o setor têm sofrido com a concorrência do trigo da Argentina, de preço mais baixo.
A última safra ainda está parada nos silos que, em poucos meses precisam liberar espaço para receber a soja. Para as lideranças da cadeia, falta vontade política do governo federal para dar ao abastecimento a atenção que ele merece.
A falta de definição tem deixado os produtores cada vez mais desestimulados em investir na cultura.
Para apoiar as lideranças do setor produtivo na busca de soluções, a Folha Rural reuniu, no último dia 26, dirigentes e técnicos em uma mesa redonda promovida com o apoio do Sindicato Rural de Londrina e o Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitarias no Norte do Paraná (Sindpanp). O evento contou com a presença da Ocepar, Faepe, representantes da indúsetria e da pesquisa; presidentes do Sindicato Rural, Sociedade Rural do Paraná, Bolsa de Cereais, Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem) e das cooperativas Integrada, de Londrina, e Corol. Também se pronunciaram técnicos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e representantes do Sindicato das Indústrias do Trigo no Paraná e do Banco do Brasil também participaram da discussão.
Debate rico em informações Durante quatro horas, os convidados levantaram os principais gargalos do cultivo do trigo e propuseram soluções emergenciais para um problema que, segundo eles, têm um cunho mais político que econômico.
O debate teve a participação do ex-ministro da Agricultura; da Indústria e do Comércio o ex-senador José Eduardo de Andrade Vieira, que ressaltou a importância da participação das lideranças. As instituições devem unir forças para pressionar o governo a adotar uma política mais compensatória, disse.
Para Vieira, o Paraná, que ainda tem um enorme potencial de crescimento, é prejudicado pela ausência de uma política de comercialização e pela falta de uma estrutura de armazenagem, que atualmente está concentrada nos portos, ressaltou.
Diagnóstico Carlos Murate, presidente da Cooperativa Integrada, segunda maior receptora de trigo do Paraná, acredita que não há uma solução imediata para os baixos preços praticados nos últimos meses. Para ele, quem determina o valor da mercadoria é a lei da oferta e procura. Não adianta culpar o governo e os moinhos. É preciso que cada segmento faça a sua parte.
Assim, para superar as dificuldades, Murate sugeriu que os produtores melhorassem a qualidade do trigo para torná-lo mais competitivo. A qualidade é o que deve balizar o preço, reforçou.
De acordo com Ywao Miyamoto, presidente da Abrasem, o Brasil já possui a tecnologia e as variedades necessárias para superar a qualidade do trigo argentino, mas o País só irá se destacar quando houver uma política de proteção à produção nacional. Isso seria possível com a criação de uma Câmara Setorial do Agronegócio no Paraná, propôs.
A capacidade produtiva do País permitiria uma produção de 13 milhões de t de trigo. Com incentivos governamentais atenderíamos a demanda nacional e ainda teríamos um bom excedente para exportação, defendeu.
Atualmente, a demanda nacional é de mais de 10 milhões de toneladas (t) para uma produção de cerca de 6 milhões de t de trigo. O Paraná é o maior produtor, responsável por mais de 3 milhões de t. Devido à concorrência externa, esta produção, mesmo pequena, não é absorvida pelo mercado nacional.
Eliseu de Paula, presidente da Corol, lembrou que do total produzido no Estado em 2004, apenas 1 milhão de t foram comercializadas até agora. Fomos chamados para produzir e tivemos uma produtividade alta. Teoricamente deveríamos estar confortáveis, assinalou.
Segundo ele, o governo não tem garantido nem mesmo o preço mínimo para a venda do trigo, cotado em R$ 400/t. Tem produtor pensando em não plantar mais um único pé de trigo em 2005, desabafou.
Para Vieira, o crescimento das potências asiáticas poderá favorecer a ascensão do preço das commodities brasileiras, mesmo em casos de supersafra. Falo sem medo de errar que a China irá aumentar a importação de produtos agrícolas, absorvendo grande parte da nossa produção, apontou.
Falta de logística Luiz Roberto Ferrari, presidente da Bolsa de Cereais de Londrina, critica a ineficiência do sistema de logística brasileiro. Ele informa que hoje existem apenas quatro navios de bandeira nacional que transportam o trigo do Sul para o Norte e Nordeste do País, onde está a maior demanda pelo grão.
No início do ano, essas embarcações precisam ser remanejadas para o escoamento da safra de verão, comprometendo o transporte do trigo. O governo federal deveria autorizar a participação de navios de diversas bandeiras na cabotagem (transporte entre os portos) do trigo, sugeriu.
A dificuldade é orçamentária. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que só nos três estados do Sul seriam necessários R$ 9 bilhões para obras de infra-estrutura nos próximos três anos. Entretanto, o orçamento da União para 2005 destina menos de R$ 70 milhões ao Paraná, valor bem aquém aos R$ 700 milhões necessários.
Planejamento Planificar antecipadamente a safra de inverno foi a solução apontada pelo presidente da Sociedade Rural do Paraná, Edson Neme Ruiz, para dar fôlego aos produtores de trigo. Segundo ele, o governo deveria garantir uma renda mínima ao produtor, assegurando as lavouras, além de dificultar a entrada de produtos internacionais.
Para Ruiz, o monopólio interno dos moinhos e o uso da agricultura como moeda de troca para outros setores (automobilismo, por exemplo) também comprometem o preço das commodities nacionais. Hoje é crime o produtor ter lucro, afirmou.
Como ele, Mario Cruz, funcionário do Banco do Brasil, acredita que o seguro pode ser uma saída para o trigo. Os produtores precisam vender antes de plantar, disse. Segundo ele, os recursos disponíveis são sempre os mesmos, o que aumenta é o custo de produção.
Eliseu de Paula calcula que em 2005, os cooperados da Corol deverão gastar R$ 23,86 para uma produtividade de 100 sacas/alqueire. Hoje, o mercado paga, em média, R$ 21 a saca, lamentou.


