Competição na Região Sul
Roque Tomasini
O consumidor final na cidade ou no campo compra um produto, fundamentalmente, por duas características básicas: preço e qualidade. Pouco lhe interessa se é produto gaúcho, catarinense, paranaense, produzido em outros Estados ou importado.
Os atacadistas e os industriais, além dessas características, no processo de decisão de compra, consideram decisivo o prazo de financiamento e a taxa de juro. Como nos produtos importados essas condições são muito mais favoráveis, o produto nacional perde seu poder de competição. O caso do trigo é um perfeito exemplo das vantagens em adquirir o produto importado em detrimento do nacional.
Na tentativa de reservar o mercado interno para produtos nacionais, chega-se a sugerir o controle da entrada de produtos importados de outros países. Porém, como enfrentar os direitos assegurados nos tratados internacionais, principalmente pela Organização Mundial do Comércio (OMC)? Não parece um problema de fácil solução. Romper o tratado do Mercosul com a Argentina, que hoje exporta 30% da sua produção global para o Brasil?
Como conviver com a competição de produtos que recebem subsídios, legalmente permitidos ou não declarados, em seus países de origem? Via os mecanismos de ‘‘panels’’ permitidos pela OMC? Subsidiando nossos produtos de forma a torná-los competitivos? Legalmente, até certo limite, pode-se utilizar esta alternativa. Entretanto, com que recursos? Resta a alternativa de investir em pesquisa como forma de aumentar a produtividade e/ou reduzir custos. Subsídios à pesquisa são permitidos pela OMC.
Com relação à Argentina, principal exportador de trigo para o Brasil e já importante exportador de milho, o problema maior se concentra no horizonte de curto prazo. A agricultura argentina tem limites de produção, entre os quais o mais grave é o relativo à disponibilidade de água. Mesmo na principal região produtora de grãos, denominada Pampa Úmido, a maior parte da área não permite o sistema de duplo cultivo, como o de trigo-soja. Fora dessa área aumenta o risco de frustração de safra por falta de água.
Atualmente os triticultores brasileiros sofrem com a competição do trigo argentino, que pelo seu baixo custo de produção, pelo baixo custo de frete e de melhores condições de pagamento, compete com o trigo nacional. Entretanto, atualmente, não é o trigo o produto que mais atrai os agricultores argentinos. A produção de soja, pelo amplo mercado externo e pela maior rentabilidade, tem aumentado ano a ano, disputando mercado com a soja brasileira.
A produção de soja argentina evoluiu de 3.500.000 t na safra de 1978/80 para 19.000.000 t na safra de 1997/98. O trigo na argentina passou de cultura principal a cultura secundária na produção de grãos, embora em média, entre estes períodos, mantenha uma área plantada de 5.000.000 hectares.
A longo prazo, se os agricultores argentinos quiserem manter ou aumentar os atuais níveis de produtividade, terão que recorrer ao uso de fertilizantes fosforados, além do nitrogênio que já é utilizado. Isto significa maior produtividade, acompanhada de maiores custos de produção e de maior risco financeiro no caso de frustração de safra.
O uso da irrigação, pelo seu alto custo, não deverá ocupar áreas significativas. A agricultura argentina é, e continuará a ser, um forte concorrente da agricultura brasileira em termos de custos unitários de produção. Todavia, diante das necessidades brasileiras de consumo interno, não se deve esperar que a Argentina continue a ser nossa principal supridora de trigo.
Temos área e tecnologia disponíveis para, se quisermos, atingir até a auto-suficiência. Aumentar a produção depende de vários fatores, tais como: decisão política de continuar com apoio à comercialização da produção; diminuir o denominado ‘‘custo Brasil’’; que as decisões da OMC, no sentido de diminuir os subsídios à produção e à comercialização do trigo importado, sejam cumpridas.
O autor é engenheiro-agrônomo, pesquisador da Embrapa Trigo, sediada em Passo Fundo, RS.

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