Como tirar o País da armadilha
Como tirar o País da armadilha
Ágide Meneguette
Tomara eu esteja errado, mas este não deverá ser um ano muito propício para a agropecuária, primeiro porque estamos atravessando uma situação extremamente crítica do ponto de vista econômico. A recessão é admitida até por autoridades do governo Federal, o que pode significar uma redução da demanda interna por produtos primários, com queda de preços.
Esta situação interna de dificuldades agrava-se pela situação externa também de crise. Depois de alguns anos de produções comprometidas por efeitos climáticos, o mundo parece em condições de recompor os estoques das principais commodities agropecuárias. Isto acontece justamente quando um grande número de países sofre os efeitos do furacão econômico que pôs de joelhos os tigres asiáticos e praticamente arrasou à Rússia.
Estes países atingidos são grandes demandadores de importações agropecuárias e importantes clientes do Brasil. Recessão mundial mais aumento da oferta de produtos primários tem um significado extremamente simples: acirramento da competição e queda de preço.
Os produtores brasileiros vão, assim, enfrentar um aumento da competição em seus tradicionais mercados por parte dos países desenvolvidos, especialmente Estados Unidos e União Européia.
Essa competição, contudo, não se restringirá às áreas de nossos clientes tradicionais, mas ocorrerá em nosso próprio quintal, por algumas distorções da política econômica do governo brasileiro, podendo, de certa forma, repetir o desastre de 1995, quando as importações reduziram os preços domésticos a pó-de-traque, responsável pela brutal descapitalização e empobrecimento do campo.
Ocorre que os defeitos da política econômica não foram corrigidos; a sobrevalorização do Real continua dificultando as exportações e facilitando as importações. A simples conversão dos preços dos produtos no mercado internacional já avilta os preços brasileiros, sem que haja um mecanismo de compensação. A defesa em cambial continua sendo a mãe de todos os males, inclusive dos juros indecentes que paralisam negócios em todas as áreas da economia brasileira.
O Governo tem ensaiado algumas medidas de proteção, especialmete no caso do leite, mas os resultados têm sido inúteis. A razão é simples: o Governo teima em tratar como uma questão política um problema de polícia, uma vez que a triangulação de produtos, seja leite, trigo, ou qualquer outro através do Mercosul, é fraude e merece o enquadramento no Código Penal.
Poderia enumerar os vários defeitos de nossa política econômica, que prejudicam a agropecuária: a defasagem cambial, os juros altos, a tributação excessiva, o alto custo do transporte e dos portos, a falta de uma infra-estrutura adequada, a timidez do crédito e assim por diante.
Mas basta citar um só: o governo Federal não tem a sensibilidade necessária para tratar da agropecuária, apesar dos notáveis resultados que ela tem proporcionado em nossa balança comercial com sucessivos saldos líquidos positivos no comércio exterior, o que tem evitado vexames maiores no balanço de pagamentos negativos do País.
A agricultura favorece a meta governamental de obter resultados positivos nas reservas cambiais, mas ele (Governo) não se dá conta disso. Não se trata apenas de incentivar as exportações, mas também de evitar as importações com o aumento da oferta interna. E mais: de aumento da demanda por produtos nacionais de outros setores, via melhora de renda dos produtores e trabalhadores rurais.
O campo tem esse dom, o de multiplicar renda com uma rapidez incrível, de uma safra para outra, caso obtenha o suporte necessário da parte do Governo. Não é nem questão de dinheiro, mas da formulação de uma política que dê ao produtor rural condições de competividade frente aos nossos concorrentes mundiais.
Isto poderia não fazer deste ano um sucesso para a agropecuária, mas pelo menos minoraria os efeitos das crises interna e internacional e ao mesmo tempo lançaria os alicerces para um novo salto de produção e produtividade. A estratégia nada inteligente do Governo, de transferir renda do setor primário para o industrial, só pode nos direcionar para o êxodo rural e o consequente empobrecimento do povo brasileiro.
Resumindo, com compreensão da realidade e um pouco de bom senso, o governo Federal pode fazer com que a agropecuária recomponha o seu poder de competição, supere a crise e ajude o País a sair da maldita armadilha em que ela se meteu.
O autor é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná.





