Como está se desenhando 1997
Décio Luiz Gazzoni
Numa economia globalizada, tudo que acontece de importante em um país, passa a ter reflexos em outros países. Para quem lida, com os negócios agrícolas, é muito importante estar atento ao que acontece nos principais atores do mercado internacional, para antecipar as oportunidades e desviar-se das ameaças. É importante ter em conta que 1997 está sendo um
ano particularmente abençoado. Dos 197 Estados soberanos (dos quais 140
signatários da Organização Mundial do Comércio), nenhum está em guerra
aberta com outro, embora cerca de 30 conflitos internos - étnicos, tribais
ou religiosos - estejam em curso sem ameaçar a estabilidade mundial.
Com este pano de fundo, a economia mundial deve crescer cerca de 4%. Será uma das maiores incorporações de bens em todos os tempos, coexistindo com uma das menores taxas de crescimento populacional, resultando em aumento líquido da renda per capita mundial. O que significa mais renda para aquisição de produtos agrícolas. Parte desta saúde financeira pode ser creditada ao atual ciclo de negócios dos EUA - motor da economia mundial -, porém é inegável a influência da Organização Mundial do Comércio na ampliação das oportunidades de negócios entre os países.
Neste contexto é essencial estar atento às principais eleições dos próximos 12 meses. Após quase 20 anos de domínio conservador, os trabalhistas estão assumindo o governo do Reino Unido. As razões da vantagem trabalhista são de diversas ordens, entre elas o desgaste de um período prolongado de governo e a necessidade de tentar outras alternativas. Porém, o pano de fundo da campanha eleitoral foram a União Européia e os impactos financeiros e comerciais que trará. A Inglaterra foi o país que melhor se preparou para uma competição globalizada, enxugando a estrutura governamental, efetuando as reformas necessárias, e vitalizando o setor privado para a competição.
Porém, todo o ajuste tem o custo da impopularidade, e Margaret Tatcher e
John Major estão pagando o preço eleitoral de sua política de inserção da
Inglaterra na modernidade.
Atravessando o canal, o presidente Jacques Chirac dissolve o Parlamento e convoca eleições, aproveitando sua posição ainda boa junto ao eleitorado
(poderá não ser daqui a um ano), para garantir uma base parlamentar que lhe permita efetuar (com atraso) as reformas que a Inglaterra já efetuou. A França é hoje, entre os países líderes da economia mundial, um dos mais atrasados nos ajustes que podem lhe confirir competitividade no novo ambiente.
Helmuth Kohl prepara-se para mais um ciclo de governo na Alemanha, que ainda se ressente do custo da absorção da Alemanha Oriental, falida econômica e tecnologicamente. Obviamente que, dependendo do programa de governo que os eleitores venham a aprovar nas urnas, altera-se o cenário comercial para os produtos agrícolas brasileiros. Porém, mais importante que a conjuntura imediata, é a disposição destes e dos demais governos do Primeiro Mundo, de cumprir na prática o compromisso que assumiram em 1994 de, no médio prazo, eliminar os subsídios à produção agrícola. Da decisão destes governos, depende em grande parte o futuro dos agronegócios brasileiros.
O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja em Londrina.

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