Como beber um bom café e fazer justiça
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de dezembro de 2001
Sam MacDonald (*)<br>Agência IPS - De Washington 
Milhões de norte-americanos colocam em marcha as engrenagens de seus cérebros todas as manhãs graças a uma xícara de café fumegante. Até há pouco tempo, a decisão mais importante que essas pessoas tinham de tomar era se colocavam um ou mais torrões de açúcar. Mas, agora, os norte-americanos podem escolher entre beber um café com a marca ''Fair Trade'' (Comércio Justo) ou outro qualquer sem essa etiqueta. O produto Fair Trade promete aos empobrecidos cafeicultores do Terceiro Mundo maior lucro pela comercialização, enquanto os consumidores obtêm uma xícara de café mais amistoso com o meio ambiente.
Entretanto, há mais coisas em jogo do que a infusão que passa pelo filtro da cafeteira. O café Fair Trade pode servir para demonstrar que as políticas sociais mais compassivas e justas não têm necessariamente que sair do Congresso norte-americano, podendo ser moldadas pelos consumidores armados apenas com umas poucas moedas e um pouco de informação.
A empresa Starbucks começou a oferecer mesclas de café Fair Trade em seus 2400 pontos de venda, em outubro de 2000. Um ano depois, a cadeia de lojas de alimentos Safeway colocou no mercado um café torrado Fair Trade. Esta nova situação se baseia em duas circunstâncias: os preços no mercado mundial de café estão mais baixos do que nunca e os camponeses recebem apenas US$ 0,20 por uma libra de café, que nos Estados Unidos é normalmente vendida a US$ 10,00.
Nesse contexto, a organização sem fins lucrativos, com sede na Califórnia, TransFair USA lançou o conceito de comércio justo no cenário norte-americano. A TransFair deu seu selo de garantia para o café que entra nos Estados Unidos quando o produto atende a uma série de exigências. Segundo Deborah Hirsch, coordenadora para o exterior da TransFair, a organização preocupa-se com as pessoas nos países produtores de café e procura fazer com que os cafeicultores recebam pelo menos US$ 1,25 por libra, ou seja, seis vezes mais do que o valor atual. A TransFair ajuda os camponeses a se organizarem em cooperativas e a evitarem os intermediários. Quem deseja pagar um pouco mais por produtos socialmente corretos (a diferença fica entre US$ 0,25 e US$ 0,50 a mais por libra) pode comprar os que têm a etiqueta da TransFair e estar certos de que o café atende a rigorosas exigências de qualidade.
O Co-op America, um grupo sem fins lucrativos com sede em Washington, formou a Fair Trade Federation para agir como ''clearinghouse'' (escritório de compensação) para os diversos programas de certificados iniciados de repente em várias partes do país. Também publica as National Green Pages (Páginas Verdes Nacionais), um guia comercial onde figuram desde companhias madeireiras ecologicamente corretas até assessores em investimentos que beneficiam os trabalhadores. ''Nossa missão é reforçar as alternativas do poder de consumo, as opções em matéria de investimentos e as práticas comerciais para estimular a mudança social e ambiental'', afirmou Chirs O'Brien, diretor administrativo do Co-op America Business Network. ''Em outras palavras, estamos usando estratégias baseadas no mercado para influir na mudança social'', explicou.
Estes mesmos temas estão no centro do debate que acontece no Congresso dos Estados Unidos em relação à Autoridade para a Promoção do Comércio. O governo quer ter o direito de negociar acordos comerciais internacionais e somente depois submetê-los à votação dos parlamentares. Os democratas no Congresso não apoiarão essa pretensão do governo, a menos que tenham a garantia de que os acordos conterão numerosas cláusulas adicionais a favor do trabalho e do meio ambiente, de modo que os consumidores e as empresas norte-americanas não explorem os trabalhadores estrangeiros pobres.
Se as pessoas compram produtos com a etiqueta Fair Trade, essa tarefa já está sendo cumprida. Se não o fazem, talvez os democratas tenham de admitir que os norte-americanos preferem beber uma xícara de qualquer café barato em lugar de ajudar a concretização do ideal politizado de ''justiça econômica''. A beleza da etiqueta Fair Trade é que ela permite aos consumidores votar com seus dólares.
(*) Sam MacDonald é editor, em Washington, da Reason Magazine.


