Arquivo FRObrigatórioA pasteurização é obrigatória por lei, porque o consumo do leite cru põe em risco a saúde do consumidorGrupo de estudo formado por iniciativa da Secretaria Municipal de Agricultura discute o problema do consumo do leite cru com os produtores e propõe soluções para evitar a comercialização ilegal em Londrina. Duas sugestões vão ser avaliadas pelos produtores: a formação de uma associação para montar uma microusina ou a entrega do leite cru à Cativa ou Laticínio Londrina, que se dispõem a fazer a pasteurização e devolver o leite para os produtores distribuirem.
Dos 150 produtores que vendem leite cru em Londrina, aproximadamente 40 participaram de reunião na semana passada. A Secretaria Municipal de Agricultura quer cadastrar todos os produtores dentro de um mês, com o objetivo de os orientar. Eles terão um prazo de 90 dias para se adequarem, porque depois disso a fiscalização da Vigilância Sanitária fará as autuações.
A professora e médica veterinária, Vanerli Beloti, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pesquisa o consumo de leite cru na cidade desde 93, tendo identificado consumidores e produtores. As amostras mais recentes analisadas na Universidade mostraram vários tipos de alterações que põem em risco a saúde dos consumidores.
Negócio lucrativoQuarente e dois por cento dos consumidores pesquisados declararam que compram o leite cru, pensando que é um alimento mais rico, mais puro e natural, ‘‘o leite direto da fazenda’’. E na verdade estão comprando um alimento alterado e nocivo à saúde, com a presença de bactérias de tuberculose, brucelose, listeriose, coliformes fecais, sangue e alto índice de micróbios.
Segundo Vanerli, o consumo do leite cru não acontece só em Londrina, mas ocorre em várias outras cidades não só do Paraná como em todo o Brasil. Em Cornélio Procópio, por exemplo, constatou-se que 50% do leite consumido não são pasteurizados.
Dorico da SilvaA veterinária Vanerli Beloti, responsável pela análise das amostras do leite cru consumidor em Londrina
Em Londrina, o consumo de aproximadamente 30 mil litros por dia é maior na periferia, mas também acontece em vários bairros do centro. Além de acharem que é um leite melhor, os consumidores alegam que a facilidade da entrega em casa é um dos fatores que estimulam o consumo.
Os produtores de leite cru têm um ‘‘negócio bastante lucrativo’’, diz Vanerli. ‘‘Não investem em controle de qualidade, não gastam com embalagem, não pagam impostos, e vendem por um preço igual ou maior do que o leite pasteurizado’’, explica.
SoluçõesO grupo de estudo do consumo do leite cru em Londrina é formado por representantes da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado e do município, Ministério da Agricultura, Secretaria Municipal de Saúde, Emater, Promotoria Pública e UEL.
Eles querem organizar uma campanha integrada para solucionar o problema, com ações junto ao produtor e também para os consumidores. Vanerli explica que já foi feito contato com a Cativa, que se dipõe a pasteurizar o leite dos produtores por um custo de R$ 0,13 o litro, e devolveria o leite para ser comercializado por eles.
A Emater, empresa que presta assistência técnica, se prontificou a orientar projetos para os produtores que queiram formar uma associação para instalação de uma microusina. Vanerli diz que boa parte do produtores tem condições de fazer a pasteurização. ‘‘Quem produz, por exemplo 150 quilos de queijo por dia, como é o caso de um produtor local, precisa de no mínimo mil litros de leite. Quem produz mil litros por dia já não é considerado um pequeno produtor’’, pondera.
Os produtores terão um prazo de 30 dias para o casdatramento na Secretaria Municipal de Agricultura. Em 60 dias devem fazer uma opção entre as alternativas de pasteurização, e em 90 dias começará a fiscalização.
Uma campanha educativa procurará conscientizar os consumidores dos riscos do consumo do leite cru. ‘‘Vamos envolver, principalmente as escolas, porque as crianças são mais sensíveis às informações e acabam levando para os pais’’, diz Vanerli.
Os produtores que não atenderem a estas recomendações serão multados, e seus produtos serão recolhidos. No caso de reincidência poderão ser processados pela Promotoria Pública, por terem cometido um crime. ‘‘Afinal, o comércio de leite cru é ilegal e os produtores sabem disso’’.
Dia 15, às 14 horas, haverá uma nova reunião entre técnicos e produtores, para aprofundar as questões e as alternativas para a solução do problemas.
ContaminaçõesAs principais alterações verificadas nas amostras do leite cru foram a presença de brucelose, coliformes fecais, sangue, tuberculose e listeriose, além de uma contagem microbiana muito acima do permitido e a presença de 20% de água misturada ao leite.
Vanerli Beloti explica que estas bactérias e o alto índice de micróbios podem provocar doenças e intoxicações graves. ‘‘Na maioria dos casos as pessoas não relacionam o problema com o consumo do leite, e mesmo para os médicos fica difícil o diagnóstico, porque muitas doenças demoram para se manifestar’’.
A tuberculose, por exemplo, é uma doença que tem aumentado na região de Londrina. A veterinária acredita que é muito provável que seja provocada pelo alto consumo do leite cru. A listeriose é uma bactéria perigosa também, porque chega a provocar abortos.
A fervura do leite elimina apenas uma parte dos riscos, inibindo a ação das bactérias de tuberculose e brucelose, mas não evitam as intoxicações alimentares, que em certos casos podem levar até à morte, dependendo da toxina. Vanerli alerta as pessoas, para não consumir leite cru e assim evitar um risco desnecessário.

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