Comercializar é o desafio agricultura
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sexta-feira, 06 de abril de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
O principal desafio do Ministério de Agricultura e Abastecimento para os próximos dois anos é garantir a comercialização da safra com valores que remunerem o produtor, evitando a formação de estoques que ocasionem queda dos preços, anunciou Célio Brovino Porto, diretor de planejamento da secretaria de Política Agrícola do ministério. Ele esteve em Londrina nesta semana participando da 41ª Exposição Agropecuária e Industrial, onde fez palestra sobre as perspectivas da agricultura brasileira.
Segundo ele, a saída para amenizar o problema dos baixos preços é abrir caminhos para a exportação, divulgando produtos brasileiros no exterior. Desenvolver mecanismos para conquistar novos mercados, aumentar a produção de forma competitiva e reduzir os custos também estão entre as prioridades do governo para o próximo biênio.
Política AgrícolaEntre os produtos que enfrentam problemas de comercialização, Porto destacou o milho, que apresentou safra recorde de 34,6 milhões de toneladas esse ano. O ministério pretende negociar o excedente através de Aquisições do Governo Federal (AGF), responsáveis pela compra de 700 mil toneladas; os contratos de opção, que garantem saída de 1,7 milhão de toneladas; o PEP (200 mil toneladas) e exportações na ordem de 1,5 milhão de toneladas. Segundo o diretor, essas medidas possibilitarão o escoamento de 4,1 milhões de toneladas, valor que perfaz o excedente de produção.
Para garantir a comercialização da safra de trigo, que começa a ser plantada nas próximas semanas, o governo estabeleceu preço mínimo de R$ 225,00 por tonelada, com possibilidade de contratos de opção a um valor mais elevado. Ele não adiantou, porém, qual vai ser o montante de recursos disponíveis, pois o orçamento está apertado para atender o milho, o arroz e o algodão, que integram a lista de prioridades com relação à comercialização.
Diretrizes O plano do governo federal para a safra 2001/2002 será anunciado em junho, mas Célio Porto adiantou que o ministério vai privilegiar as condições de venda dos produtos. Não adianta estimular a produção se a comercialização for ruim, afirmou. O governo vai concentrar esforços para garantir o preço, com foco em setores que apresentam bom potencial, como é o caso da fruticultura, do leite, da correção de solos e da renovação de pastagens.
Sanidade, rastreabilidade, certificação de qualidade, superação do desafio das exportações, investimentos em pesquisa, infra-estrutura e tributação também estão entre as prioridades do plano 2001/2002. A possibilidade de abaixar os juros agrícolas, cujo índice hoje é de 8,4%, também está sendo estudada.
Exportação O ministério da Agricultura defende a exportação como uma das soluções para escoamento da produção agrícola brasileira. Por isso, investimentos nessa área integram as preocupações do governo para os próximos dois anos. No ano passado, comentou Porto, foram liberadas verbas específicas para promoção comercial de produtos brasileiros no exterior, o que inclui participação em feiras e intercâmbio de visitas entre produtores brasileiros e estrangeiros.
O ministério levou café, frutas e cachaça nacionais para degustação nos estandes brasileiros em eventos internacionais, por serem produtos que agradam consumidores de outros países. O diretor da secretaria de Política Agrícola salientou que os grãos nacionais, como o milho e a soja, também costumam ser bem aceitos em mercados externos com restrição aos transgênicos.
ALCA A União Européia é a maior compradora de produtos agropecuários brasileiros. Entre 1998 e 2000, o continente adquiriu 45% de todo volume de produtos agrícolas exportados, de acordo com dados divulgados pelo ministério de Agricultura. Países da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), cuja implantação está sendo discutida entre as nações envolvidas, são responsáveis pela aquisição de 16% do total exportado no mesmo período.
Os Estados Unidos (EUA) importaram 53% desse montante e os países do Mercosul, 27%. Com relação às importações brasileiras, a matemática se inverte: 58% dos produtos agrícolas que o Brasil comprou do exterior vieram do Mercosul e 12% dos EUA, colocando os países vizinhos na condição de principais concorrentes da agricultura nacional.
Diante dessa conjuntura, Célio Porto avalia que a associação com os EUA, através da ALCA, seria positiva para a agricultura brasileira, desde que os americanos reduzissem as barreiras comerciais e o Brasil superasse as barreiras sanitárias. Por outro lado, a aliança prejudicaria a indústria nacional.
Assistência técnica Questionado sobre a preocupação do governo federal com relação à falta de assistência técnica para o produtor rural, ele afirmou que os médios produtores foram o segmento mais prejudicado com a extinção da Embrater, em 1989.
Segundo Célio, o apoio aos pequenos ficou a cargo dos Estados e os grandes produtores passaram a utilizar serviços privados, mas os que não se encaixavam nas duas faixas acabaram desamparados. Por isso, o ministério está estudando medidas de apoio específicas para essa faixa, inclusive para continuar dando suporte aos pequenos que progridem e deixam de receber assistência, comentou, sem explicar que tipo de política será implementada.
Ele acrescentou que os pequenos produtores também são eliminados de qualquer processo que exija grande grau de mecanização, como aconteceu no Mato Grosso com a retomada da cultura de algodão.
Para continuarem no campo, a orientação é praticar atividades que exijam apenas mão-de-obra familiar. Agricultura orgânica e integração à agro-indústria são alguns exemplos de solução para esses produtores. Para concorrerem no mercado internacional, devem se unir em cooperativas ou consórcios, visando garantir o volume mínimo exigido pelas empresas estrangeiras que compram produtos nacionais.


