Pequenos produtores de alimentos orgânicos do Norte do Paraná estão encontrando dificuldades para comercializar seus produtos na região. Segundo a engenheira agrônoma Ernestina Izumi Muraoka, da Emater de Uraí, as condições impostas pelas grandes redes de supermercado dificultam a venda dos produtos. Normalmente, as empresas estabelecem uma quantidade mínima de 100 bandejas de cinco espécies diferentes para fechar a compra, além de exigir a certificação de produção orgânica que é concedida por institutos especializados.
A imposição inviabiliza as negociações com a maior parte dos produtores regionais, que concentram seus investimentos em grandes quantidades e poucas variedades. A saída encontrada por 31 pequenos agricultores de municípios próximos a Londrina foi vender os alimentos para empresas intermediárias de São Paulo e Cascavel. Eles se reuniram na Associação dos Produtores Orgânicos da Região de Londrina (Apol) e conseguiram o selo de certificação do Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD).
ClassificaçãoA marca permite classificar o produto como orgânico, oferecendo ao consumidor a garantia de alimentos livres de agrotóxicos e adubos químicos. Para o agricultor, a vantagem está no melhor preço obtido com a venda. ‘‘Vender para São Paulo é mais fácil porque a cidade já tem mercado pronto. Londrina oferece potencial para o consumo de alimentos orgânicos, mas muitas pessoas ainda desconhecem a existência desta opção’’, afirmou o agricultor Jasson Fernandes de Oliveira, responsável pela comercialização dos produtos da Apol.
CrescimentoO ministério da Agricultura ainda não tem dados oficiais sobre a produção de orgânicos no país, mas estimativas indicam que são cultivados aproximadamente 100 mil hectares em cerca de 4.500 unidades de produção orgânica. Setenta por cento da produção brasileira encontra-se nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Paraná, que lidera o ranking concentrando 2.400 propiedades.
Segundo pesquisa realizada pelo professor Moacir Darolt, doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pelas universidades Federal do Paraná e Paris VII, o mercado orgânico crescia 10% ao ano no início da década de 90, mas atingiu 50% nos últimos três anos. O Brasil ocupa o posto de 34º maior exportador, vendendo principalmente para a União Européia, Estados Unidos e Japão.
No Paraná, dados do Departamento de Economia Rural (Deral) da secretaria estadual de Agricultura indicam que a safra 2000/2001 deve ter um crescimento de 60%, superando as 49.728 toneladas colhidas no período anterior.
Os principais produtos orgânicos brasileiros exportados são café (Minas Gerais); cacau (Bahia); soja, açúcar mascavo e erva-mate (Paraná); suco de laranja, óleo de dendê e frutas secas (São Paulo); castanha de caju (Nordeste) e guaraná (Amazônia). As últimas estimativas indicam que as exportações brasileiras já atingem cerca de US$ 100 milhões anuais, sendo 80% dos produtos originários de médios produtores, 10% de pequenos e 10% de grandes produtores rurais.
Bom preçoOs associados da Apol produzem hortaliças, leguminosas, frutas e cereais livres de agroquímicos. Jasson já está vendendo 3 mil bandejas de quiabo por semana, por R$ 0,80 cada. Também vai vender 90 sacas de café orgânico para a Europa, que renderão cerca de R$ 300 por unidade. Ele ressalta que a maioria dos cereais produzidos na região são enviados para o exterior.
Produtora em Uraí, Lírian Hino comercializa as hortaliças que cultiva na feira livre da cidade, a um preço 20% mais alto que o praticado pelos agricultores convencionais. Também plantam soja orgânica para exportação, já que o produto não tem muita saída no mercado nacional.
A agricultora Elizabeth Okuyama, de Assaí, vendeu 1500 caixas de maracujá doce no semestre passado, ao preço de R$ 30 por caixa. Ela contou que foi influenciada a investir neste tipo de cultura pelo pai, que optou pela agricultura orgânica quando começou a ter fortes alergias aos agrotóxicos que utilizava na prática convencional. Na propriedade familiar de 54,3 hectares, eles também cultivam pêra e caqui.
DificuldadesElizabeth comentou que enfrentou algumas dificuldades quando resolveu optar pelos orgânicos. ‘‘É diferente do método tradicional porque exige observação diária da lavoura’’, disse. Todos os dias, ela acompanha a quantidade de moscas no pomar. Quando percebe excesso maior que 10% do volume normal, encapa todas as frutas com saquinhos apropriados, visando evitar o ataque dos insetos, e retira os predadores manualmente.
Lírian ressaltou uma maior necessidade de mão-de-obra para viabilizar o cultivo das verduras. Para impedir o contato da soja com os agrotóxicos utilizados nas lavouras vizinhas, ela plantou uma barreira de milho que será comercializado no mercado convencional. Na divisa, também colocou iscas para eliminar as pragas procedentes das outras plantações.
A qualidade do solo é garantida pela utilização da adubação verde, obtida através de biofertilizantes naturais. A agricultura orgânica exige mais cuidado por parte do produtor’’, analisou a agricultora.

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