Começo de nova safra
Ademir Calegari
A colheita do trigo está a pleno vapor e muitos produtores entram agora numa fase de muita reflexão sobre o que plantar nesta nova safra que vem aí. Quase todos os anos a situação se repete...a maioria dos agricultores decide pelo que vai plantar, apenas a poucos dias do plantio! Mas, por que isso ocorre?
Indubitavelmente por uma insegurança, porque o Governo não garante preços. E também, é claro, pelas condições ditadas pelo mercado, principalmente o internacional. Mas e daí, o que fazer?
Temos observado que os bons preços alcançados pela soja, ditados pela demanda internacional, principalmente neste último ano agrícola, têm influenciado sobremaneira a decisão de grande parte dos produtores rurais, que ao contrário da maioria dos anos, está decidindo antecipadamente pelo plantio da soja no próximo verão. Mas, é claro que, prudentemente, muitos produtores estão se perguntando: e os preços deste ano, novamente irão se repetir? A resposta é que não se sabe com segurança o que irá ocorrer. Mas, enquanto isso, façamos algumas reflexões:
É comum ouvirmos de inúmeros produtores, principalmente da região Norte do Paraná, que há 12-15 anos a produtividade da soja ou do próprio milho era bem superior à atual. Mas o que ocorreu, se tivemos avanço considerável nesses últimos anos em questões como material genético, maquinaria, insumos em geral (fertilizantes, agroquímicos, etc.), e principalmente em termos de capacitação dos agrônomos, técnicos e produtores rurais?
Um dos principais componentes do complexo sistema de produção agrícola, que é o solo agrícola, foi um dos mais penalizados e que mais sofreram com o manejo indiscriminado e excessivo uso de equipamentos de preparo: arados, grades pesadas, etc. Tudo isso contribuiu para uma diminuição da capacidade produtiva do solo, ou seja, as respostas dos cultivos, mesmo com uso de insumos, já não são tão grandes quanto há uma ou duas décadas.
Na verdade o que ocorreu foi uma elevada e acelerada diminuição dos teores de matéria orgânica do solo, que por consequência tem deixado as plantas mais sucestíveis a pequenos veranicos, e com menor potencial de absorção de água e nutrientes.
A matéria orgânica tem uma importância capital nos solos tropicais e subtropicias. O que necessitamos em caráter urgentissimo é promover formas de manejo que priorizem a manutenção do carbono orgânico no solo; que mantenham e, principalmente, aumentem os teores de matéria orgânica do solo e consequentemente devolva a capacidade produtiva que outrora a maioria destes solos possuíam.
Nesse sentido, o sistema de plantio direto é a forma mais eficiente, em manejo de solo para cultivos anuais, que proporciona através da cobertura morta (palhada) uma maior proteção ao solo, melhoria das condições ambientais para o desenvolvimento das plantas, maior estabilidade na produção e, consequentemente ao longo dos anos, uma maior rentabilidade a nível de propriedade agrícola.
Portanto, devemos conhecer primeiramente a capacidade produtiva dos nossos solos, e isso com um bom diagnóstico físico, químico e biológico, e um histórico da propriedade. Depois, é preciso ainda coragem, ousadia e perseverança neste sistema (plantio direto), que é realmente desafiador, e onde não existem pacotes, ou receitas, mas sim princípios e bom senso no uso ordenado de plantas de cobertura adaptadas às condições de clima e solo de cada região, e inserida adequadamente em sistemas de rotações que poderão levar à diminuição de custos de produção, facilitando assim a escolha do agricultor.
Os grandes componentes dos fatores de produção que ajudam o agricultor nessa escolha deveriam ser: a capacidade produtiva do solo, o custo de produção de determinada cultura, e, por último, a expectativa de um mercado internacional incerto ou dúbio. Nada temos contra o cultivo da soja. Muito pelo contrário, o que questionamos é o olhar para uma única direção, principalmente quando embasada apenas em preços de uma safra anterior.
Baixos custos, menores riscos e produtividades relativamente boas (fatos comuns em solos com elevada capacidade produtiva) podem contribuir para a viabilidade técnica e econômica do cultivo de plantas em algumas glebas da propriedade, como o milho por exemplo, fundamentais para a manutenção da capacidade produtiva do solo e sustentação de sistemas de rotações de culturas no Paraná.
O autor é engenheiro agrônomo MSc., pesquisador da Área de Solos do Iapar em Londrina.

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