Cláudia Barberato
De Londrina
Cresce a cada ano a ocorrência da tuberculose em bovinos. Por outro lado, a legislação existente no controle da zoonose (essa doença é transmida ao homem, principalmente através do leite não pasteurizado) é falha e não é cumprida. O alerta é da Associação Brasileira de Buiatria (ABB), entidade que reúne veterinários especializados em bovinos. A entidade já entregou pedido ao Ministério da Agricultura com uma proposta de combate à tuberculose bovina, solicitando uma campanha nacional e a revisão na legislação da defesa sanitária.
Poucos testesDe acordo com dados das Associação de Buiatria, de 1990 a 1997 foi produzido em média, por ano, 1,5 milhão de doses de tuberculina, teste para identificar animais infectados. O problema é que o Brasil tem um rebanho de 160 milhões de cabeças. Considerando somente as vacas em ordenha, uma média de 13,7 milhões de cabeças, calcula-se que neste período apenas 7,7% delas foram testadas. E mais: apenas 40% dos testes tiveram resultados notificados.
O responsável pela campanha dentro da entidade, Maurício Garcia, informa que foram identificados, entre 1990 e 1997, na média anual, 5.352 casos positivos ou suspeitos de tuberculose, mas em apenas 8% dos casos os animais foram abatidos. A legislação em vigor obriga a notificação do teste e, em diagnósticos positivos, o abate dos animais.
Segundo Garcia, o pedido ao Ministério da Agricultura foi encaminhado com propostas retiradas durante fóruns de debates realizados nos Estados da Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
Propriedades certificadas Entre as sugestões levantadas por veterinários estão a criação de comitês estaduais e um comitê nacional para coordenar a campanha de combate à tuberculose, além da criação de um certificado para propriedades livres da doença.
O certificado seria concedido somente para as propriedades que apresentassem 100% dos resultados da tuberculina negativos em animais com mais de dois meses de idade submetidos a duas provas sucessivas.
Outras propostas seriam a proibição no tratamento de animais positivos, que deverão ser sacrificados; e uma campanha de conscientização, envolvendo toda a cadeia produtiva: criadores, veterinários, médicos, frigoríficos e consumidores.
Problema mundialDe acordo com informações da Associação Brasileira de Buiatria (ABB), as tuberculoses bovina e a humana registram índices crescentes no mundo todo. A incidência da tuberculose bovina é maior em países onde o serviço de saúde veterinária ainda é precário, principalmente nas criações extensivas de bovinos leiteiros.
Na América Latina e Caribe, ainda segundo informações da ABB, existem aproximadamente 300 milhões de bovinos, dos quais 73% estão em áreas com maior incidência da doença. A estimativa de perdas econômicas decorrentes da doença nos países desenvolvidos alcança os 10% da produtividade do gado leiteiro. Na Argentina, por exemplo, o índice de ocorrência chega a 18%, segundo os técnicos, por conta do atraso na primeira lactação e redução do número de lactações na fêmea.
Perigo no homemPor ser a doença uma zoonose, o homem é o mais prejudicado. O contágio se dá através do leite e seus derivados não pasteurizados. Segundo informações da Associação de Buiatria fica difícil quantificar o número de casos de tuberculose bovina em humanos.
Além da falta de notificação como sendo de origem bovina, muitas vezes a origem da doença é confundida. Existem estimativas de que os casos de tuberculose bovina em humanos seja de 1% em países industrializados e 5% nos países em desenvolvimento.
No Brasil, em 1996, foram identificados 80 mil novos casos de tuberculose em humanos. Este índice seria de quatro mil casos de tuberculose de origem bovina. De acordo com a Associação de Buiatria, existem pessoas que defendem o tratamento dos animais. A entidade acredita que a erradicação diminuiria as perdas econômicas, facilitaria o comércio de produtos e de animais para fora do País e ainda protegeria o homem contra a doença.
Como aconteceO bacilo da tuberculose permanece ‘‘viável’’ nos estábulos, no pasto e no esterco dos animais por até dois anos. Na água a resistência é de um ano e nos produtos de origem animal de 10 meses. O bacilo resiste ao calor e em condições de umidade e sem luz se mantém viável por longos períodos. O bovino infectado transmite a doença para outros animais através da respiração, fezes, urina, leite, secreções vaginal e nasal e pelo sêmen.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) já declarou que a tuberculose em humanos é alarmante. Em 1998 foram registrados nove milhões de novos casos em todo o mundo. Na última década a doença matou mais de 30 milhões de pessoas. No Brasil, em 1996, a tuberculose foi a segunda doença que mais apresentou novos casos, 80 mil, ficando atrás da malária, com 420 mil casos, enquanto a AIDS foi a quarta, com 16 mil novos casos.

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