Combate à mosca branca é difícil
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 1997
Cristina Côrtes 
Foto: Milton DoriaO pesquisador da Embrapa, Daniel Sosa Gómez, diz que a praga ainda não é problema para a soja no BrasilO crescimento das populações da mosca branca (Bemisia argentifolii) em diversos Estados preocupa produtores, técnicos e pesquisadores. A praga ataca diversas culturas e plantas ornamentais, e são difíceis de serem controladas. Desenvolvem rapidamente resistência aos agrotóxicos e costumam ficar na face inferior da folha, anulando os efeitos das pulverizações.
Na semana passada o Ministério da Agricultura promoveu um encontro internacional sobre a mosca branca, em Brasília, reunindo mais de 150 técnicos brasileiros e dez pesquisadores da Colômbia, Estados Unidos e Israel. Eles discutiram a biologia do inseto, o manejo integrado, o controle biológico e químico. O Ministério pretende criar um programa nacional de prevenção e controle da mosca branca.
O inseto desenvolve-se em um grande número de plantas, atingindo mais de 500 espécies de 70 famílias botânicas. Causa danos em tomate, abóbora, melão, melancia, feijão e feijão-vagem, entre outros. A soja é uma ótima hospedeira, mas a praga ainda não causa danos às lavouras. Segundo o entomologista da Embrapa-Soja, Daniel Sosa Gómez, que participou do encontro em Brasília, apenas na safra de 95/96 houve perdas de soja por mosca branca numa área localizada na região de Primeiro de Maio.
DisseminaçãoAté recentemente a mosca branca (Bemisia tabaci) era a praga mais comum no Brasil, causando danos esporádicos. A partir de 91 as populações foram crescendo, com o consequente aumento de fumagina (secreção açucarada que é depositada nas folhas, onde se desenvolve um fungo preto que acaba queimando as folhas).
Alguns sintomas diferentes ocorreram e se constatou que eram causados pela entrada de um biotipo B ou Bemisia argentifolli, uma nova raça do inseto que já vem causando danos sócio-econômicos em vários países do mundo, com prejuízos de mais de R$1 bilhão, inclusive na soja.
O primeiro registro desta nova raça foi feito em São Paulo, e atualmente está presente também nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Tocantins, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.
Os insetos localizam-se na face inferior da folha, onde se abrigam e se alimentam, sugando a seiva da planta. Suas formas jovens (ninfas) movimentam-se após a eclosão dos ovos e depois fixam-se na folha até que atinjam a fase adulta. Daniel Gómez explica que um dos tipos de controle que está sendo pesquisado é o parasitismo das ninfas por outros insetos. Os dois insetos são muito parecidos biologicamente, só que o controle da nova raça é mais difícil.
ControleA mosca branca adquire facilmente resistência aos venenos utilizados para seu controle. No caso do cultivo de tomates no Nordeste, onde o clima seco e quente favorece a multiplicação da praga, os produtores estão fazendo de 15 a 20 aplicações de inseticidas durante o ciclo. Esta prática tem inviabilizado o plantio. Tanto é que está havendo uma diminuição da área. Dos 8500 hectares (ha) cultivados, a área caiu para 5000 ha no último ano, comenta Daniel.
Quando o inseto suga a seiva da planta, injeta substâncias tóxicas que provocam o amadurecimento irregular dos frutos, diminuindo seu valor comercial, tanto para o consumo in natura como para o processamento.
Por enquanto as recomendações para controle são de uso de inseticidas seletivos que não atinjam os prováveis inimigos naturais; deve-se também alternar diferentes tipos de inseticidas, para evitar resistência; fazer as pulverizações com equipamentos bem regulados e bicos apropriados e pulverizar de baixo para cima, visando atingir a parte inferior das folhas. O inseticida de amplo espectro deve ser utilizado só em último caso, diz o entomologista.
A pesquisa está estudando fungos que também podem ser uma alternativa de controle. Formas de manejo também foram discutidas no congresso, como a eliminação de plantas daninhas hospedeiras dos insetos e plantas doentes com sintomas de virose. As principais ervas daninhas hospedeiras são ervanço, picão preto, joá de capote, amendoim bravo e camará
ProteçãoPara proteger os Estados que ainda estão livres da praga, o Ministério da Agricultura publicou portaria em fevereiro deste ano, determinando que o trânsito interestadual de vegetais hospedeiros de pragas só poderá ser liberado após a inspeção no local de origem, comprovando a sanidade da carga.
Técnicos do Ministério da Agricultura e da Embrapa estão treinando pessoas para o serviço. Neste ano, o treinamento já foi dado na Bahia e no Distrito Federal. No mês de novembro é a vez de Goiás.


