O professor de veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Mauro Moraes é um dos pesquisadores da equipe que prepara a nova vacina contra a febre aftosa. O produto, segundo Moraes, permitirá diferenciar animal sadio vacinado do infectado. ‘‘Como será possível identificar exatamente quais animais estão infectados não seria mais necessário abater todo o rebanho que teve contato com a doença; só os de fato doentes, o que pode significar uma grande economia para os produtores.’’
Segundo o professor ainda não há previsão de quando a vacina poderá ser efetivamente usada a campo, pois depende do interesse das empresas que atuam na produção de medicamentos. ‘‘O tempo de comercialização e o preço da nova vacina também vão depender do interesse de empresas produtoras. A UFV e a Fapemig apenas desenvolvem as técnicas e os conhecimentos. Além disso, não há legislação específica para comercialização de vacinas baseadas em vírus recombinante no Brasil.’’
Margem de erros
A vacina contra aftosa usada hoje, de acordo com o professor Moraes, é fabricada a partir de vírus mortos ou debilitados da doença, que são injetados no animal a ser imunizado. No exame de sangue é impossível distinguir os vestígios da vacina dos da própria doença. Em uma área com casos confirmados de aftosa todo o rebanho é sacrificado, mesmo que tenha sido vacinado, já que é impossível diferenciar os animais realmente infectados daqueles que estão sadios, mas foram vacinados.
Essa situação, alerta o professor, faz com que a carne de bois vacinados não seja aceita no mercado externo, limitando o poder de exportação do produto brasileiro. Além disso, há o prejuízo com o abate preventivo de animais possivelmente sadios, como o ocorrido em surtos anteriores no Brasil.
Evitar sacrifícios
A nova vacina, explica Mauro Moraes, utiliza uma variação genética do vírus da aftosa, chamado adenovírus. Essa variação não produz todas as proteínas do vírus original. O adenovírus produz, em menor quantidade, as proteínas estruturais do vírus, que são identificadas pelo organismo do animal vacinado e usadas como ‘‘modelo’’ para a produção de anticorpos contra o vírus real. ‘‘Entretanto, ele não produz as proteínas não estruturais, que causam a doença.’’
Dessa forma, continua o professor da UFV, é possível saber, pelo exame de sangue, qual animal vacinado foi infectado e qual não foi. ‘‘O animal sadio apresenta apenas as proteínas estruturais, enquanto o infectado apresenta as duas. Com essa diferenciação é possível evitar o sacrifício de animais sadios.’’
Desvantagens e vantagens
A desvantagem da vacina, segundo Moraes, é que ela apresenta diminuição de eficiência em tratamentos de longo prazo. ‘‘Inicialmente a eficiência da vacina é 100%’’, afirma Moraes. ‘‘Mas, com uso prolongado, ela tende a perder rendimento’’. Segundo ele, para uso como vacina de emergência ou no controle de áreas livres de aftosa sem vacinação, é melhor que a tradicional. ‘‘Com a nova vacina o animal pode ser considerado imune num prazo mínimo de sete dias, contra 21 dias da tradicional. Isso não significa que não haja a desvantagem do uso prolongado’’. Mas os pesquisadores do Ministério da Agricultura dos EUA, parceiros no desenvolvimento da vacina, já estão trabalhando para tentar contornar esse problema.
Existem várias formas de contornar a situação, garante o professor Mauro Moraes, porém essa vacina já poderia ser utilizada em condições emergenciais, por exemplo, nos casos acontecidos no Rio Grande do Sul ano passado. ‘‘Caso a a nova vacina pudesse ter sido utilizada não haveria a perda do ‘status’ de área livre sem vacinação, pois mesmo os animais vacinados poderiam ser comercializados após testes negativos para a presença da infecção viral.’’
O uso da nova vacina traria vantagens comerciais para a carne brasileira no mercado internacional mesmo de animais vacinados, além da possibilidade de eliminação somente daqueles animais que foram infectados e não de todos os animais em contato como seria atualmente.
De acordo com o professor Moraes o desenvolvimento de vacinas alternativas à vacina comercializada é recente e tem menos de cinco anos. Esse projeto da nova vacina reúne professores da UFV com financiamento de bolsas pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e recursos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

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