Com pouco se vive
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sábado, 20 de junho de 2020
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Antigamente a gente costumava usar muitos ditados populares. E todos muito sábios. Hoje em dia o povo já não tem vez, muito menos voz. Basta um mais velho abrir a boca para ser cortado: isso é coisa de velho. Até há poucos dias eu também não podia perder tempo com bobagens e, mais ainda, não me importava tanto com os problemas dos outros, os meus já bastavam.
Mas a idade e os acontecimentos mudam a vida da gente. Em tempos de coronavírus, no cantinho do castigo, nos colocamos para pensar. E sobra tempo para bastante coisa, inclusive para revirarmos nossas gavetas e lembranças, nossa casa e nossa vida, ocupando a mente e o coração, mandando para longe as muitas preocupações.
Nossos conceitos também mudaram, valorizamos o que temos, economizamos em tudo, de modo especial nas despesas com a casa, disciplinamos nossa alimentação, cuidamos da casa, das roupas, de tudo, enfim, para que nada venha a faltar, além de nos preocuparmos com o que está acontecendo com os outros e, mesmo restringindo nossos gastos, temos desejo de ajudar e partilhar. De repente nos sentimos assim, solidários, sentimentais, românticos, fraternos. O essencial é o normal, não precisamos de tanto, não desperdiçamos nada, não compramos inutilidades, nem sentimos falta de geladeira cheia e guarda-roupa impecável.
Novos tempos, velhos costumes, menos consumo, mais interiorização, mais solidariedade e uma boa vontade de manter as amizades. De repente, não precisamos comprar roupa porque não temos onde usar. Fazemos o pão em casa - na minha rua agora surgiu um monte de padeiros - e vamos levar para o vizinho, enrolado num pano de prato, como faziam nossas avós. Nesse clima, volto à época em que ouvia os ditados de minha avó, tão simples e tão sábia: “ Com pouco se vive, com muito se passa”; “Quem dá aos pobres empresta a Deus”; “ Deus dá o frio conforme o cobertor”, “Que o pouco com Deus é muito”ou quando minha mãe dizia, referindo-se ao trabalho com os filhos pequenos que a lã não pesa para a ovelha, o amor não é pesado para ninguém.
O livro do Eclesiastes, na Bíblia, também diz que nessa terra há tempo para tudo e cada obrigação tem seu tempo debaixo do céu. Estamos numa fase de espera, confiantes que tudo vai passar, tudo é provisório! Privados de muitas coisas, principalmente da liberdade de sair de casa, da vontade de ver os amigos e familiares, de passear mesmo, vamos aproveitando a lição, também de casa, que nos ensina a acreditar na importância da vida e na sua preservação, a todo custo. Enquanto caminhamos do quarto para a sala, enquanto olhamos o limitado horizonte pela janela, sondamos a vida dos vizinhos, conversamos através do muro, mantendo a distância e de máscara, olhamos para o céu, pensando que talvez possa chover... qualquer coisa boba assim...Enquanto colocamos nossa imaginação a todo vapor, para não “pirarmos”, vamos nos colocar em modo de espera: sem perder a confiança que o dia vai chegar, que a tempestade vai passar, que o sol vai brilhar e nós, quem sabe mais reconciliados, mais sábios, mais fraternos e muito mais felizes, vamos poder abrir a nossa porta e então poder caminhar em paz.
Estela Maria Ferreira, leitora da FOLHA.


