Com café da Serra de Apucarana, IGs se tornam tendência no Estado
Três décadas após regulamentação, selos de Indicações Geográficas transformam comunidades rurais e semeiam ambição por produções especiais nas lavouras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Três décadas após regulamentação, selos de Indicações Geográficas transformam comunidades rurais e semeiam ambição por produções especiais nas lavouras
Lúcio Flávio Moura 

Há um horizonte de transformação que move os passos de quem vive no distrito de Pirapó, no município de Apucarana. Um dos poucos pólos cafeeiros que resistiram à metamorfose agrícola dos últimos 50 anos no Norte do Estado, a comunidade rural está preparando uma festa para celebrar uma certificação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI, a sigla é pronunciada letra a letra) que vai gerar muito mais que um selo de procedência, uma logomarca que faz alusão aos três rios fundamentais para a riqueza local - o Pirapó, o Tibagi e o Ivaí - na forma de um grão de café, cercado por um fio ondulado que remete ao vento constante que sopra forte nas partes altas e as estradas que serpenteiam a crista dos vales.
A confirmação de que o café da Serra de Apucarana passa a ser protegido por uma Denominação de Origem (DO) abre novas perspectivas socioambientais e econômicas, que afastam as sombras da estagnação e do esquecimento de uma comunidade. No caso dos cafeicultores de Pirapó, os planos são cristalinos como uma nascente intocada: fortalecer a associação que existe há 20 anos e que congrega menos de 20% dos 250 produtores do município, colocar o café especial como um personagem de destaque nas festas religiosas (do padroeiro do distrito, Santo Antônio de Pádua, em junho, e a de Nossa Senhora Aparecida, em outubro), integrar o município na Rota do Café, consolidar uma agenda de eventos no museu que ocupa a antiga estação ferroviária do distrito e multiplicar a torrefação doméstica através do acesso a linhas de financiamento para a compra de maquinários.
Carlos César Bovo, presidente da Associação de Cafeicultores de Apucarana (Acap), conta que serão distribuídas cartilhas para todos os cafeicultores. O objetivo é que as orientações contidas no caderno sejam um guia para que eles façam adequações necessárias no manejo do café e também nas áreas de secagem. “A associação vai ficar responsável por fiscalizar todas as etapas de produção e vamos contar com orientação de especialistas”, explica.
A transformação que se desenha em Pirapó já ocorreu em muitas áreas do Estado e do País. A busca pelas certificações e o impacto delas é um dos capítulos mais marcantes da agricultura brasileira no século XXI. Tudo começou em 1996, com a aprovação da Lei de Propriedade Industrial, na qual a proteção das indicações geográficas se tornou expressamente prevista, iniciando uma corrida por reconhecimento que já é realidade em 163 pontos do País, 121 deles na modalidade de indicações de procedência e 42 em denominação de origem, que é o caso da Serra de Apucarana.

De acordo com o chefe da Divisão de Indicações Geográficas do INPI, Igor Martins, 35 pedidos de registro estão sendo examinados pelo INPI. “Podem requerer registro de indicações geográficas, na qualidade de substitutos processuais, a associação, o sindicato, ou qualquer outra entidade que possa atuar como tal em razão da lei. Se a indicação geográfica for uma indicação de procedência, devem ser apresentados documentos que comprovem que o nome geográfico se tornou conhecido como centro de extração, produção ou fabricação do produto ou de prestação do serviço. Se a indicação geográfica for uma denominação de origem, são necessários documentos que comprovem a influência do meio geográfico nas qualidades ou características do produto ou serviço”, explica Martins. “O Manual de Indicações Geográficas do INPI orienta o público a respeito dos procedimentos necessários para o registro e as fases que envolvem o exame do pedido”, informa.
Em Apucarana, a concessão da IG foi viabilizada com subsídio do programa Sebraetec, do Sebrae/PR, e recursos da Prefeitura Municipal de Apucarana, por meio da Acap, apoiada pelo suporte do Instituto do Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), responsável por elaborar os estudos técnicos.
O café serrano com sotaque pé-vermelho engloba também áreas do município de Arapongas e Cambira e se junta a outras 23 IGs paranaenses. Ele é apenas o terceiro do Estado na modalidade DO, que é uma espécie de mistura de um “terroir” com características singulares de manejo. As outras duas DOs foram concedidas para o mel de Ortigueira e para o café de Mandaguari. “O selo reconhece que o café de Apucarana é especial. Graças às características do solo e do clima, produzimos um café que só é encontrado aqui e na África”, afirma Bovo, um filho da terra que defende a história de três gerações de cafeicultores, acostumados com “a ventania danada” das cristas dos vales, um sopro incontrolável que se estende do meio da manhã até o meio da tarde. “Aqui a gente nunca respira o mesmo ar porque passa muito rápido”, brinca. “E isso é excelente para o café”.
O ritmo de certificações está acelerado no Paraná. Este mês, as Tortas de Carambeí entraram no rol nacional, fato que movimentou os Campos Gerais, principalmente a comunidade holandesa. Em 2025, a certificação foi alcançada pelas ostras de Cabaraquara (uma comunidade encravada no Parque Nacional Saint-Hillaire/Lange, no município de Guaratuba); pela ponkan de Cerro Azul, no Vale do Ribeira; pelas broas de centeio e pela carne de onça (prato à base de carne bovina crua e bem condimentada) de Curitiba; pela cracóvia (embutido) de Prudentópolis; pelo urucum (coloral) de Paranacity (no Noroeste); e pelo queijo colonial do Sudoeste.
“A proteção concedida por uma IG, além de preservar as tradições locais, pode diferenciar produtos e serviços, melhorar o acesso ao mercado e promover o desenvolvimento regional, gerando efeitos para produtores, prestadores de serviço e consumidores”, explica Igor Martins, do INPI. “Isso porque a IG é uma ferramenta que, se bem gerida pela coletividade, pode agregar valor ao produto ou serviço, operando como um diferencial competitivo no mercado, além de atrair novos participantes para a cadeia produtiva ou de prestação do serviço em questão devido ao sucesso da atividade”, afirma.
A PARTICIPAÇÃO DO SEBRAE
Para entender como o processo de certificação e a sua confirmação impactam as comunidades rurais paranaenses, a Folha conversou com o consultor do Sebrae, Odemir Vieira Campello, com experiência de mais de 30 anos em articulação de cadeias produtivas e desenvolvimento territorial no Norte Pioneiro e que acompanhou o amadurecimento de IGs, da germinação até o ponto de colheita, desde a sua base em Jacarezinho.
O primeiro foi o café do Norte Pioneiro, que engloba lavouras espalhadas em 45 municípios daquela região. O processo começou em 2008 e foi finalizado quatro anos depois, após a elaboração de um dossiê de 500 páginas que justificava o pleito quando as IGs ainda eram raras e criadas sem referências anteriores. “Lembro que eu estudei a região da Emilia-Romanha, no Norte da Itália, um território marcado pela predominância de pequenas propriedades agrícolas. No Norte Pioneiro, esta característica é também muito forte, com mais de 90% de minifúndios na área agricultável”, ressalta. “O desafio de regiões como estas é trabalhar duro para que os pequenos consigam ser rentáveis. As indicações geográficas ajudam a acelerar este processo porque o esforço para a certificação provoca um olhar mais cuidadoso para um tripé, que se sustenta com a avaliação correta do mercado, com o fomento constante da cultura de inovação e com o foco direcionado sempre ao associativismo”, explica.
O êxito da certificação dos cafés especiais do Norte Pioneiro foi um alento para replicar o mesmo trabalho com outras vocações do Norte Pioneiro. “Além da comercialização a granel, com o selo, a região se tornou um polo de pequenos produtores de café torrado e moído, o que não existia antes da existência do selo. Temos mais de 50 marcas no mercado”, exemplifica.
GOIABA E MORANGO
Campello usou o mesmo método de mobilização para estruturar outras cadeias de produção. Em 2016, foi a vez da goiaba de Carlópolis, município que ostenta desde 2023 o título de capital nacional da fruta, cuja produção foi multiplicada por seis no intervalo de uma década, mesmo com práticas ambientalmente sustentáveis exigidas para a exportação. “Eu diria para o arranjo da Serra de Apucarana que a certificação é só o começo da história. É preciso muito trabalho de agora em diante. Hoje, Carlópolis exporta goiaba para a Europa, com preços que chegam ao dobro em comparação com o mercado interno. Temos esperança que estas conquistas tragam outras porque já temos produtos de qualidade no mercado. A produção de lichia, por exemplo, deve entrar no comércio internacional em breve”.

Outro processo que o Sebrae acompanhou no Norte Pioneiro foi a indicação geográfica do morango, um pleito da Associação Norte Velho dos Produtores Rurais de Jaboti, Japira, Pinhalão e Tomazina, que congrega 28 produtores, que usam apenas o controle biológico no combate às pragas. O INPI concedeu a IG em 2022, após dois anos de trabalho árduo.
“Tivemos que criar categorias de morangos. Hoje existe o gourmet, o kid e o para fondue. Esta classificação a gente desenvolveu porque em pesquisas com supermercadistas nós entendemos que o preço não era um fator tão relevante e sim a questão da uniformidade do fruto dentro da embalagem. E assim conseguimos ganhar a confiança deles e vender mais”, lembra o consultor do Sebrae.


