Com aumento populacional, javalis são abatidos no Paraná
Na Mata dos Godoy, em Londrina, o IAT vem instalando armadilhas para a captura dos animais selvagens. CACs podem fazer o abate
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sábado, 29 de março de 2025
Na Mata dos Godoy, em Londrina, o IAT vem instalando armadilhas para a captura dos animais selvagens. CACs podem fazer o abate

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Os problemas socioeconômicos e ambientais ocasionados pelos javalis, chamados popularmente de porcos selvagens, já são conhecidos dos produtores rurais há muitos anos. Trata-se de uma espécie exótica invasora trazida para o Brasil na década de 1960 para a pecuária, mas a falta de controle fez o animal se espalhar rapidamente. São porcos nativos da Europa, Ásia e Norte da África, com facilidade de adaptação e comportamento violento.
As primeiras experiências para o manejo dos javalis no Brasil datam da década de 1990, no Rio Grande do Sul, e aos poucos foram se espalhando pelo país. Também foi proibida a importação desses animais e foram estabelecidas normas rígidas para a criação, mas os criadouros ilegais continuaram existindo. O aumento da distribuição pelo território nacional levou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), em 2013, a autorizar o controle da espécie.
Em Londrina, a ONG MAE (Meio Ambiental Equilibrado) realizou, entre 2018 e 2021, o monitoramento com câmeras do Parque Estadual Mata dos Godoy, que registrou o crescimento desses animais no local. A UEL (Universidade Estadual de Londrina) também monitora esses animais na região com o projeto “Monitoramento de mamíferos de médio e grande porte”, do Laboratório de Ecologia Evolutiva e Conservação.
Uma publicação científica feita por pesquisadores da ONG e da UEL, em 2021, alertou que, embora a presença dos porcos selvagens fosse conhecida desde 2008 na Mata dos Godoy, os registros indicavam que o parque estava passando “pelos estágios iniciais de invasão”.
"Bomba-relógio sanitária"
Gustavo Góes, gestor ambiental e integrante da ONG MAE, explica que os javalis são considerados uma das cem piores espécies exóticas invasoras. Além disso, em 2019, um relatório do Ibama colocou Londrina como uma área prioritária para controle populacional.
“Eles invadem ambientes de outras espécies e trazem danos. Ainda danificam lavouras, sendo um problema socioeconômico”, afirma Góes, que ressalta que a presença dos porcos selvagens era conhecida na região de Londrina, mas o monitoramento revelou uma enorme população na Mata dos Godoy.
Segundo o gestor ambiental, a literatura e a prática do dia a dia mostram que “só a arma de fogo não resolve” o complexo problema ocasionado pelos javalis. “Precisamos de grandes armadilhas para retirar grande parte dos porcos que estão no habitat e, então, fazer o uso complementar da arma”, acrescenta.
Outro problema está relacionado ao risco sanitário, já que não é incomum o consumo da carne de javali. Como é uma espécie selvagem, carrega patógenos com potencial de espalhar doenças para humanos e outros animais. “Eu diria que é uma bomba-relógio sanitária", completa Góes.
MANEJO
Mais recentemente, o IAT (Instituto Água e Terra), responsável pelo parque, passou a instalar armadilhas com milho e sal para a captura dos javalis na unidade de conservação - as primeiras, de madeira, eram fixas; agora, são móveis e utilizadas em diferentes pontos da mata. Depois de capturados, os animais podem ser abatidos por CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores), que são acionados pelo chefe do parque.

A gerente de biodiversidade do IAT, Patrícia Calderari, explica que o abate busca controlar essa espécie, que tem fácil adaptação e reprodução acelerada como características - as fêmeas podem dar à luz de seis a dez filhotes, até duas vezes por ano. “Se não tiver esse controle, eles acabam se multiplicando”.
A gerente do IAT explica que, no período de entressafra, quando não há cultivos interessantes, os porcos selvagens costumam se abrigar na mata fechada, procurando sementes, raízes e espécies menores como alimentos. É uma espécie que circula pela região de Londrina.
O manejo dentro da unidade de conservação precisa seguir regras diferentes. Calderari pontua que a caça não é permitida e que, quando os animais são pegos por uma armadilha, os controladores são acionados para fazer o abate, que segue uma série de determinações para garantir o bem-estar dos javalis e evitar sofrimento.
“A facilidade de manejo que os proprietários privados têm é maior, porque eles têm outras modalidades de caça que podem executar. Mas, se todos atuarem em conjunto, os resultados são muito mais efetivos”, reforça Calderari.
“É uma espécie muito perigosa de lidar"
Um desses controladores é o caçador Leandro Dias de Souza, que atua há vários anos em uma propriedade vizinha à Mata dos Godoy. Ele relata que os porcos podem devastar vários alqueires de plantações, além de danificar minas d'água na mata fechada e atacar animais de pequeno porte.
“É uma espécie muito perigosa de lidar, é preciso ter um certo tipo de experiência. Na realidade, a única solução que esses agricultores estão tentando é contratar as equipes de caça para entrar na propriedade para fazer o controle e o manejo legalizado”, ressalta, destacando que seu grupo possui as autorizações do Ibama e do Exército para fazer o manejo. “Já fizemos mais de 300 abates, sempre cadastrados e enviados para o Ibama. É a única solução.”
A legislação atual proíbe uso de armadilhas letais ou que possam ferir o animal; emprego de veneno; uso de óleo queimado para atrair os javalis; fazer o controle próximo a rodovias; transportar indivíduos vivos e comercializar produtos e subprodutos de javalis.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.


