Colha, mas não queime a palha
Jota Oliveira
De Londrina
Embora já se pudessem ver aqui e ali máquinas colhendo pequenos lotes de trigo, a colheita de fato começa na segunda quinzena de agosto, isto é, já na semana que vem. Maior produtor brasileiro de trigo, situação que faz supor uso de elevada tecnologia, o Estado ainda convive com uma prática antiga e nociva: o fogo na palha, para limpar o terreno.
A recomendação que fazemos é não queimar a palhada, para manutenção das qualidades do solo, diz o pesquisador Armênio Kathounian, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Além de ser negativo para o solo, o fogo é crime, se não for autorizado. O Artigo 250 do Código Penal define como Crime de incêndio: Causar incêndio, expondo a perigo a vida, a integridade física ou o patrimônio de outrem. Um patrimônio sempre ameaçado por queimadas são, por exemplo, as redes de energia elétrica. Todos os anos empresas regionais, como a Eletrosul, e estaduais, como a Copel no Paraná, fazem alertas a respeito da prática arriscada e antieconômica de fogo nos restos de lavouras, nas pastagens e nos canaviais.
Outro pesquisador do Iapar, Luís Alberto Cogrossi Campos, da área de trigo, diz que a prática de queimada não é recomendada porque, entre outros motivos, como risco de incêndio, para se fazer o plantio direto é preciso ter palha no solo. Outro fator importante contra as queimadas é a preservação da microflora e da microfauna no campo.
Campos lembra que botar fogo na palha do trigo é ainda comum no México, onde a quantidade de resteva justifica, porque o equipamento que existe não é suficiente para eliminar de 7 a 8 toneladas de palha que sobra da colheita do trigo mexicano. Mas, no Paraná, com apenas uma tonelada e meia de resíduos no final da colheita, o equipamento é suficiente para incorporar essa massa ao solo, no plantio convencional, enquanto no plantio direto a permanência da palha sobre o solo é indispensável.
CrimeO fogo pode dar cadeia (reclusão) de 3 a 6 anos, e multa. As penas aumentam 1/3: se o crime é cometido com intuito de obter vantagem pecuniária em proveito próprio ou alheio. Se o incêndio é em lavoura, pastagem, mata ou floresta, ele pode ser culposo, e nesse caso a pena é detenção, de seis meses a dois anos.
Existe ainda a reparação civil dos prejuízos. Isso ocorre pelos seguintes motivos: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito ou causar prejuízos a outrem, fica obrigado a reparar o dano; os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado e, se tiver mais de um autor a ofensa, todos responderão solidários pela reparação.
ProduçãoEm sua última estimativa de safra, o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), calculava que o Paraná plantou 765.000 hectares de trigo, contra 898.000 ha na safra passada, ou seja, 23% menos. O Brasil, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, órgão do Ministério da Agricultura), plantou 1.429.700 hectares (+ 4,1% em relação ao ano passado) e deve colher 2.727.500 toneladas (+ 24,7% t). O Estado produz 60% do trigo brasileiro e, apesar da queda na área cultivada, a produção deve ser praticamente a mesma, devido às boas condições climáticas deste inverno.
No Norte do Paraná são plantados 270 mil hectares de trigo. Neste inverno de muito sol e pouco frio, o desenvolvimento das lavouras é considerado bom. Segundo o pesquisador Sérgio Roberto Dotto, da Embrapa Soja, o clima esteve favorável à cultura, porque choveu na época da semeadura e do crescimento da planta e agora, no momento da colheita, há bastante insolação e pouca chuva.
Para as lavouras que estão sendo tecnicamente bem conduzidas, em que os produtores escolheram a variedade ideal para a região, adubaram adequadamente e aplicaram fungicida quando necessário, espera-se um rendimento perto de 3 mil quilogramas por hectare, quando a média nacional é de 1.800 kg/ha, prevê Dotto.
Além do trigo estar sendo beneficiado pelo clima, as lavouras apresentam pequena incidência de doenças. Por isso, os produtores gastaram menos com fungicidas este ano, o que diminui o custo de produção, analisa o pesquisador. Só em alguns municípios do Norte e Oeste do Estado ocorreram doenças fúngicas, surpreendendo os produtores.
ComercializaçãoDotto lembra ainda que, após a colheita, o produtor deve separar as variedades em lotes, de acordo com a classe referente à qualidade industrial (brando- variedade indicada para a fabricação de biscoitos e pizzas; pão - específica para o preparo de pão francês e melhorador, utilizado para preparar massas). A separação facilita a comercialização, explica.
Mesmo que o lavrador consiga boas produtividades, tem que enfrentar a instabilidade dos preços. Por isso, todos os anos, os agricultores ficam desestimulados. O resultado é que a demanda brasileira acaba sendo maior do que a oferta. O Brasil produz 2,7 milhões toneladas, e importa aproximadamente 6 milhões e 200 mil toneladas.
Para o agronegócio do trigo evoluir é preciso existir maior entrosamento entre setor produtivo e industrial, comenta. Dotto acrescenta que enquanto os agricultores precisam cada vez mais se adequar às exigências do mercado, este precisa especificar o tipo de produto que necessita e adquirir o grão pelo preço que commpense o investimento do produtor.
Na opinião de Dotto, os produtores podem ganhar mercado, regionalizando a escolha de cultivares. Essa prática vem sendo estimulada pelas cooperativas. Assim, os produtores de cada região terão um produto com características específicas e que atendam as necessidasdes de cada mercado.
A colheita para valer está sendo iniciada e o produtor já deve ter preparado suas máquinas, se não quiser ter prejuízo. O agrônomo Otmar Hubner, do Deral, informa que as lavouras estão bem desenvolvidas e a única preocupação era o risco de geada no período que antecede a colheita.
Grão deixado no chão é dinheiro jogado fora. O produtor sabe disso, mas a cultura do desperdício ainda faz com que os índices de perdas nas lavouras de trigo sejam altos. Segundo informações do pesquisador José Antônio Portella, da Embrapa Trigo (RS), somando as perdas na colheita às decorrentes do transporte, do armazenamento e do processamento industrial, chega-se a desperdiçar 15% da produção.





