Colchão para crise
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sexta-feira, 30 de junho de 2017
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

A crise econômica mundial que estourou em 2008 e a recessão brasileira que começou em 2014 e perdura até hoje prejudicaram menos as cooperativas paranaenses do que as empresas privadas. Mais do que isso, as 221 associações do tipo no Estado tiveram aumento de 260% no faturamento e ampliaram o número de cooperados e de funcionários mesmo nos anos mais difíceis da última década, conforme balanços da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). Por isso, o sistema funciona como um "colchão para crise", reduzindo riscos com a união de esforços e com a divisão de perdas.
Os números dão mais motivos aos paranaenses para comemorar o Dia Internacional do Cooperativismo, marcado sempre para o primeiro sábado de julho e que neste ano será neste dia 1º. Fortemente amparada no agronegócio, responsável por 86% da receita total do sistema em 2016, houve apenas um ano desde 2007 em que o faturamento não foi maior do que nos 12 meses anteriores. Segundo a Ocepar, houve desaceleração de R$ 25,830 bilhões para R$ 25,060 bilhões entre 2008 e 2009, uma diferença de 3%. Mesmo assim, o número de cooperados cresceu de 513 mil para 548 mil e o de empregos diretos, de 51 mil para 55 mil no mesmo comparativo.
Porém, é mesmo a confiança, a credibilidade e o poder de decisão de todos os associados que amortecem os riscos de crises nas cooperativas. Para se ter uma ideia, 78% do quadro social das entidades do tipo no setor rural é formada por pequenos e médios agricultores, que trabalham em uma área menor do que 50 hectares e dependem mais de apoio para ter poder de negociação semelhante ao dos grandes no mercado.

Mesmo que problemas climáticos causem prejuízos, as cooperativas permitem que o associado possa negociar melhor preços para a safra, para insumos para o próximo plantio ou mesmo buscar crédito junto à própria entidade. Ainda, é preciso lembrar que é feita uma divisão de resultados no fim de cada ano, que garante uma renda extra e mitiga eventuais perdas. "A base é o cooperado e os dirigentes de cooperativas vão fazer de tudo para atendê-lo da melhor maneira possível, com o melhor preço", diz o superintendente da Ocepar, Robson Mafioletti.
Ele afirma que as cooperativas são as maiores empresas em mais de 100 dos 399 municípios paranaenses. "São empregos e renda importantes que são gerados no interior, o que ajudam a movimentar a economia por todo o Estado", conta Mafioletti.
Para o superintendente da Ocepar, o Paraná tem outra vantagem em relação a outros estados fortes no cooperativismo, como os vizinhos do Sul. Todas as cooperativas atuam de forma conjunta para fomentar o crescimento econômico, com planejamento estratégico e visão de longo prazo. "Ninguém está imune a uma crise, mas trabalhamos com capacitação, treinamento e autogestão das cooperativas, para ajudá-las a encontrar saídas para superar problemas."
É essa divisão de esforços que também contribui para que a economia paranaense seja mais robusta do que a média nacional. As cooperativas agropecuárias responderam por 56% do Produto Interno Bruto (PIB) do setor no ano passado e devem investir R$ 2,150 bilhões em agroindústrias e armazéns neste ano, conforme a Ocepar. Dinheiro que gera uma movimentação em cascata por todo o Estado. "Tivemos R$ 50 bilhões em faturamento em 2014/15 e temos a meta, pelo plano PRC 100 (Paraná Cooperativo 100), de chegar a R$ 100 bilhões em 2019/20", diz Mafioletti. "Mas o faturamento não é o principal, e sim que tenhamos uma economia sustentável para o cooperado", completa.

Parcerias dentro do sistema
O trabalho para reduzir reflexos da crise une outros elos da cadeia cooperativista ao agronegócio. As associações de crédito, por exemplo, atuam de maneira mais próxima aos produtores rurais do que instituições financeiras privadas ou mesmo públicas. Isso porque também é a saúde dos negócios dos cooperados o principal ativo de cada associação.
O diretor-presidente da Integrada Cooperativa Agroindustrial, Jorge Hashimoto, afirma que o grupo tem uma relação bastante próxima no segmento de crédito. "Buscamos abrir a oportunidade para que tenham acesso a capital e financiamentos com taxas mais baratas", diz.
Em momentos de crise, os financiamentos seguem regras de mercado, mas com um diferencial dentro do sistema, diz o diretor executivo da Sicredi União, Rogério Machado. "Quando o cooperado procura uma cooperativa, é analisada a capacidade de crédito baseada na realidade dele, e não na média de mercado", conta. "A taxa de juro não é igual para todos, como ocorre em um banco comercial", completa.
A intercooperação, entretanto, existe mesmo dentro do agronegócio. "Produzimos sementes e ração para outras cooperativas e é uma forma de aproveitarmos melhor a estrutura que existe na Integrada", explica Hashimoto.
Para o superintendente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, a intercooperação garante sustentabilidade a todos os elos da cadeia. Ele cita que, no caso do crédito, o agricultor é orientado a ter apólices de seguro ou a aderir ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), o que diminui riscos e eleva a perenidade dos negócios.
Mafioletti cita que, em períodos de quebras de safra ou de crise, a integração entre cooperativas agropecuárias também ajuda a reduzir custos. Ele exemplifica que a Copacol, de Cafelândia, tem uma indústria de óleo bruto e, para não ter de construir uma refinaria, contratou os serviços da Cocamar, de Maringá. "Assim, a Copacol vende óleo de cozinha com marca própria", diz.
O superintendente da Ocepar aponta a relação entre a Castrolanda, de Castro, a Frísia, de Carambeí, e a Capal, de Arapoti, como exemplo de sucesso. As três usam a estrutura uma da outra para processamento de leite, farinha de trigo e carne suína. "Eles usam a capacidade ociosa de cada indústria, o que reduz o custo fixo, o custo de marketing, de logística e, quando ocorre uma crise como a dos altos preços dos insumos para suínos no ano passado, o risco é mitigado entre eles." (F.G.)


