Clima reduz safras há dois anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de dezembro de 1998
Vânia Casado 
Os prejuízos em função do clima estão se acumulando e podem ser uma dos fatores do empobrecimento no campo, principalmente dos produtores da região Centro-Sul do Paraná, admitiu o diretor do Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara.
No Brasil os efeitos do clima não são tão ruins, porque está chovendo regularmente em toda a região Centro-Oeste. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) está fazendo um segundo levantamento da safra e as informações obtidas até agora apontam para uma elevação da produtividade de milho e soja dos estados do Mato Grosso e Goiás. A produção agrícola do Nordeste também deverá ser beneficiada pela volta das chuvas. Com isso as perdas registradas na região Sul seriam compensadas com o aumento da produção de outras regiões do País.
As perdasNo Paraná os produtores estão acumulando prejúizos de R$176,8 milhões com o que deixaram de colher entre a safra de inverno 96/97 e a safra de verão 97/98, período que sofreu a influência do El Ni¤o. Na safra 97/98 houve quebra de produção na safra de fumo, soja, feijão das águas, algodão, cebola, batata das águas, trigo, aveia preta e branca.
Entre o cultivo da safra de inverno 97/98 e safra de verão 98/99, os prejuízos são maiores e já foram contabilizadas perdas de R$188,5 milhões aos produtores. Os produtos mais prejudicados são trigo, triticale, cevada, centeio, canola, aveia preta e branca e feijão das águas.
As perdas começaram com o excesso de chuvas entre os meses de outubro e novembro de 1997. O maior prejuízo ficou com os produtores de trigo, que perdeeram R$53,1 milhões, com a redução de 338.711 toneladas. A produção estimada em 1,96 milhão de toneladas, caiu para 1,62 milhão de toneladas. A produção de fumo, estimada em 70 mil toneladas, caiu 20% e foram colhidas 56 mil toneladas, provocando prejuízos de R$26,6 milhões aos produtores.
Da safra de verão 97/98, as lavouras de soja, feijão das águas e algodão foram as mais atingidas. A soja foi prejudicada pela estiagem ocorrida em janeiro de 1998 e em seguida pelo excesso de chuva na colheita, entre os meses de março e abril. Foram perdidas 100 mil toneladas e os prejuízos somaram R$22 milhões. O algodão registrou uma quebra de 21,2% na produção, com a redução de 46.783 toneladas. O prejuízo ao produtor foi de R$20,8 milhões. O feijão das águas, teve quebra de produção de 13,3% com a perda de 57 mil toneladas. Das 429 mil toneladas estimadas, foram colhidas 372 mil toneladas. O prejuízo avaliado alcançou R$35,1 milhões.
La Ni¤aEste ano, o fenômeno El Ni¤o cedeu lugar para La Ni¤a e os prejuízos provocados pelas adversidades do clima não cederam. As perdas registradas nas culturas de inverno e feijão das águas voltaram a se repetir e somam quase 700 mil toneladas. Na safra de inverno, o produto mais prejudicado foi novamente o trigo, que teve um bom desenvolvimento e as chuvas ocorridas entre setembro e outubro prejudicaram a colheita. Como resultado houve uma quebra de 19% e a produção estimada inicialmente em 1,84 milhão de toneladas caiu para 1,49 milhão de toneladas.
O feijão das águas, novamente atingido, registra perdas superiores às do ano passado. Até agora, a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento contabilizou quebras de 29% na produção, mas o mercado calcula que elas superam este índice. Primeiro o excesso de chuvas, entre setembro e outubro, e recentemente a estiagem ocorrida em novembro, foram os fatores responsáveis pela perda de 147 mil toneladas de feijão. Cerca de 22.380 hectares ocupados com a cultura foram definitivamente perdidos. Caso persista a estiagem, as perdas serão maiores, disse a técnica do Deral, Margorete Demarchi.
AbastecimentoAgora a preocupação se volta para as lavouras de milho. As plantas estão em fase de floração e pendoamento, período considerado decisivo para determinar o grau de produtividade. Se não chover até a próxima semana, certamente a produtividade da lavoura será atingida. Produtores e cooperativas ligadas aos segmentos da avicultura, suinocultura e leite já estão retendo o produto, receosos de ficar sem o milho nos meses de janeiro e fevereiro.
Com as perdas generalizadas em toda a região Sul, o mercado reage imediatamente, obrigando o governo a recorrer a importações para atender a demanda. Este ano a importação de trigo deve somar 6,5 milhões de toneladas, para atender um consumo avaliado em 8,5 milhões de toneladas. Apesar das importações o trigo colhido este ano teve que ser comercializado através do PEP (Prêmio de Escoamento do Produto) porque teve sua qualidade afetada e os moinhos preferiam o produto importado.
Com a quebra de produção do feijão das águas, o mercado começou a oscilar e em menos de 10 dias a cotação do produto aumentou 43%. Para o presidente da Conab, Eugênio Stefanelo houve especulação com a produção por parte de produtores e empacotadores. Ele lamentou a falta de estoques estratégicos do governo para combater esta onda de especulação.


