Debate sobre ‘‘Produção de Alimentos Transgênicos’’, realizado durante a 39ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, mostra que o tema deve continuar em discussão por mais tempo, e que ainda é cedo para liberar o plantio de plantas transgênicas no País.
Colocados frente a frente, participaram do debate pesquisadores com opiniões bem diversas, como representantes das empresas produtoras de sementes transgênicas, como Geraldo Berger, da Monsanto; Wilhelmus Vitdewillinger, da Novartis; o economista David Hathaway, representante da ONG Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa; Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina e Vânia Moda-Cirino do Iapar, representante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.
InteresseO auditório Milton Alcover esteve repleto de pesquisadores, produtores, técnicos da iniciativa pública e privada, demonstrando o interesse que o tema vem despertando. As exposições dos palestrantes, apesar de restritas pelo tempo, foram suficientes para suscitar o debate. Muitos dados e informações foram apresentadas sobre o trabalho de pesquisa, mas nada ainda suficiente para que os produtores pudessem sair com uma opinião formada.
O crescimento da área com transgênicos em outros países, principalmente os Estados Unidos, foi comentado por quase todos os palestrantes. Nos últimos anos, a área passou de 0% em 94 para 50% da área agricultável em 99 só nos EUA. Para se ter uma idéia do rápido crescimento, pesquisadores apresentaram os seguintes números: os americanos plantaram 8,1 milhões de hectares de transgênicos em 97 e já em 98 esta área aumentou para 20,5 milhões de hectares. Em todo o mundo a área total com transgênicos em 97 era 12,8 milhões de ha e em 98 chegou a 27,8 milhões de ha. Existem 48 produtos aprovados e 12 especíes de plantas.
BenefíciosDe acordo com análise do agrônomo da Monsanto, Geraldo Berger, estes números mostram a aceitação da nova tecnologia. ‘‘O crescimento progressivo da área é um testemunho dos benefícios das plantas transgênicas’’, disse Berger.
Por outro lado, o agrônomo Rubens Nodari afirmou que os testes até agora realizados sobre os efeitos dessas plantas sobre o meio ambiente e sobre a saúde do ser humano não são conclusivos. E que a liberação nos Estados Unidos foi precipitada. ‘‘Há várias manifestações, hoje, de pesquisadores americanos contrários a nova tecnologia, mas a legislação americana é diferente da nossa e algumas plantas transgênicas, como o milho BT, por exemplo, foram liberadas lá por estarem incluídas no segmento pesticida’’, informou Nodari.
Wilhelmus, da Novartis, falou sobre as vantagens do milho BT, resistente a pragas, que proporciona um aumento de 9,2 sacos/ha, o que representa 550 kg/ha colhidos a mais pelo produtor. ‘‘Em 98 foram plantados nos EUA 8,3 milhões de ha do milho BT, gerando uma receita adicional de US$ 456 milhões’’, informou.
AmeaçaPara David Hathaway, não são apenas as ONGs ou ecologistas desocupados que estão preocupados com a liberação do plantio de espécies transgênicas. Hathaway mostrou documento, assinado pelo presidente do Banco Mundial, Ismail Serageldin, alertando sobre os efeitos desses alimentos, tanto na saúde como no meio ambiente. A dúvida, diz o documento, é ‘‘se estes avanços biotecnológicos virão para o bem da Humanidade’’. Hathaway começou sua exposição, dizendo que ‘‘se estivesse tudo tão certo e se fosse tudo tão bom quanto os representantes das empresas produtoras dessas sementes dizem, nós não estaríamos aqui discutindo o assunto. Se há discussão, é porque ainda existem muitos questionamentos e informações incompletas’’.
Rubens Nodari, em sua apresentação, falou que é séria a ameaça que essas novas plantas podem representar para a biodiversidade brasileira. ‘‘A riqueza de uma nação está no seu povo, na sua cultura e nos seus recursos naturais’’, começou dizendo o pesquisador, destacando que o Brasil é o país mais rico do mundo em biodiversidade. ‘‘Se aprovarmos agora a liberação das plantas transgênicas, poderemos estar aprovando uma ótima tecnologia, como também uma péssima tecnologia. Ainda não sabemos’’.
Rubens Nodari também chamou de leviana a atitude da CTNBio, que está liberando o plantio da soja transgênica sem resultados de experimentos a longo prazo. Ele comentou que ‘‘a maior parte dos efeitos dessas plantas são desconhecidos’’ e que cientistas da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos já estão pedindo revisão das liberações aprovadas naquele país.
A pesquisadora Vânia Moda-Cirino, representante da CTNBio, disse que a comissão liberou até agora apenas testes dessas plantas.‘‘Não existe ainda nenhuma liberação de plantio comercial’’, afirmou. Vânia falou sobre a função da comissão, que é vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia e está atuando há dois anos e meio. A comissão analisa os resultados dos testes que são feitos pelas diversas entidades de pesquisa, públicas ou privadas.
Vânia informou que até agora foram realizados 626 testes - 3 com algodão, 28 com soja e 585 com milho. Metade dos testes são sobre resistência a herbicidas. A pesquisa com plantas transgênicas tem sido voltada, principalmente, para o desenvolvimento de resistência a herbicidas, resistência a insetos, resistência a doenças, e nutrição.
Na avaliação da empresária rural Maria Lopes Kireef, da Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais de Londrina, que organizou o debate, o objetivo do evento foi alcançado, mas ainda ficaram muitas perguntas sem respostas. Ele comentou que o assunto é muito polêmico e complexo e que muitos participantes mudaram de opinião, ou pelo menos não estão mais tão seguros quanto à decisão de plantar a soja transgênica. ‘‘Acho que precisamos ter mas informações para não decidir precipitadamente’’, avaliou.
Maria Lopes comentou também que não sabia, por exemplo, que nos Estados Unidos, onde estão as grandes áreas com plantas transgênicas, os testes ainda não são conclusivos sobre seus efeitos. ‘‘O debate levantou pontos muito interessantes que nós produtores desconhecíamos’’. Ela espera que outros encontros possam esclarecer mais as dúvidas que ficaram.Mário CesarPolêmicaO debate reuniu pesquisadores renomados de todo o País com opiniões bem divergentesCristina Côrtes

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