Ciência colocada em dúvida
Nelson Antunes
A indústria de saúde animal protesta contra a suspensão da produção e comercialização da avoparcina, já definida na União Européia e no Brasil, e de virginiamicina, bacitracina de zinco, espiramicina e tilosna, em esudo na União Européia. É estranho - para não dizer trágico - que mais uma vez interesses outros suplantem as evidências técnicas para a tomada de decisão em casos tão delicados.
Em 1996, o próprio SCAN (Comitê Científico de Alimentação Animal da União Européia) posicionou-se em relação à resistência bacteriana em seres humanos atribuída à avoparcina, enfatizando que ‘‘a evidência apresentada não estabelece risco para a saúde humana’’. Contrariando parecer do órgão científico máximo da UE, a produção de avoparcina foi suspensa.
Apesar do sensacionalismo e pânico prognosticado por alguns médicos no Brasil, também no País não há provas que liguem o uso do antibiótico à questão. A Dra. Ivani Lúcia Leme, da Escola Paulista de Medicina, analisou 234 enterococos isolados de frangos, sendo 125 deles obtidos de aves colhidas em três granjas de São Paulo, que usavam avoparcina e 92 de dois grupos de controle que não usavam o antibiótico. Todos os enterococos isolados mostraram-se sensíveis à avoparcina, ou seja, não apresentaram qualquer bactéria resistente ao medicamento.
O estudo não parou por aí. Na sequência foi analisada a presença de enterococos em 40 carcaças de frangos resfriados destinadas ao consumo da população e colhidas em supermercados. Mais uma vez, não se detectou a presença de bactérias resistentes.
Finalmente, 80 amostras de partes de frangos destinadas ao consumo dos pacientes internados foram colhidas da cozinha do Hospital São Paulo, pertencente à Escola Paulista de Medicina. Novamente não foram encontradas as bactérias resistentes à avoparcina. A título de informação: nos Estados Unidos há incidência de enterococos resistentes. Lá, a avoparcina nunca foi utilizada.
A indústria de saúde animal tem todo o interesse em esclarecer a questão, a partir dos mais rigorosos e profundos estudos científicos. A saúde humana está acima de qualquer interesse econômico ligado à produção e comercialização de medicamentos. Afinal, nós também somos humanos e, como tal, sofreríamos as consequências de um produto que estamos colocando no mercado.
É por isso que não aceitamos a decisão unilateral da União Européia, que faz campanha contra os antibióticos usados como aditivos alimentares em animais. O que não se diz é que naquele continente os estoques de alimentos são elevadissimos e os governos precisam arcar com pesados subsídios para se apoiar em algumas astividades e controlar outras.
No passado, a febre aftosa foi utilizada para dificultar as exportações brasileiras de carne bovina e suína. Nosso frango, no entanto, furou as barreiras não-tarifárias e conquistou mercados importantes de competidores europeus. Agora, os antibióticos são usados como argumento para conturbar o mercado mundial de carnes. O que virá em seguida?
O autor é presidente do Sindicato Nacional da indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan).

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